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terça-feira, 22 de maio de 2012

DE TANTO AMAR O RIO SÃO FRANCISCO

1. A torre

Domingos do Prado deixa o barco no rio São Francisco, Galga empinado penedo forrado de angicos E no alto finca o sinal da cristandade – a cruz! Então, desde os tempos imemoriais, ela vigia o rio. Nos tempos mais modernos do chão ao mais alto, Ela ganhou o cume da torre da imponente igreja Sinal visível de nossa terra nos dois pontais.
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... 2. Os angicos

Domingos do Prado aqui fincando sinal primeiro, A civilização que nascia, escolheu um nome E o primeiro foi, em razão do penedo, Pedras de Cima. Logo depois o lugar foi batizado de Pedras dos Angicos, Tamanha a profusão da bela e altaneira árvore. E ainda hoje ela teima em se espalhar pelas barrancas Vigiando como sempre fez, o nosso São Francisco.
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... 3. Quixabeira
Ainda viajando na busca dos tempos passados, Os olhos do caminheiro contemplam um tronco secular: É a velha quixabeira de lágrimas indígenas molhada. Quixabeira, índias e guerreiros uma bela história de amor, Nascida no canto melífluo e envolvente da Iara Que em noites de lua cheia no rio estendida como prata, Guerreiros levava para o fundo do palácio encantado.
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... 4. As flores
É de se ver no caminhar extasiado pelos caminhos-barranco Como se esparramam flores na relva que desce às águas Ou que cobrem em singeleza um tapete de fundo verde Nas lagoas formadas pelas mãos dos homens São puras flores roxas que nos remetem aos versos De Catulo da Paixão Cearense na lembrança de Jesus: “Por que nasceu roxa a flor do maracujá” – é amor e paixão.
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... 5. Mais flores
Muitas flores vê-se no correr do ano, no seu modo de vir Caraibinha branca, pajeú, periquiteira, canafístula... No caminhar do mês de maio, uma antecipação: Flores de mangueira e moldurando o retrato do rio. É a riqueza do sertão – flores e frutos para o homem Os olhos se encantam sempre e levam paz ao coração.
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... 6. A canoa
No barranco aportada, à sombra de angicos e pajeús, Descansa uma canoa, lida do pescador em noite de peleja Uma sensação de paz imensa, gostosa, no balançar suave; Mais ainda os beijos das marolas feitas da brisa da manhã Só de olhar a cena, o descanso toma conta do espírito Que se revigora para mais uma jornada de trabalho no dia.
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... 7. Na trilha
Descendo a trilha do barranco ao molhado do rio, Sinal dos pés, em tempos tantos passados, do pescador, Desvencilhando-se de pedras negras ali espalhadas, No jardim natural de mamonas e algodão manso, Que brotam na mata do barranco por natural de ser Plantas que a natureza cuida de ter e não faltar.
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... 8. O jumentinho
Se lembrado foi Jesus, na flor roxa rasteira, Outra lembrança Dele se tem, mais um pouco do andar Quando os olhos alcançam um jumentinho no descansar Plácido animalzinho, resignado de ser no seu pastar Ele que lembra a peregrinação de Maria e José No caminho do Egito na fuga da ira de Herodes.
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... 9. Ninho dos melros
No mesmo cenário do sossego do jumentinho distraído Forra a lagoa o denso verde das taboas que se abraçam Ali, no depois da madrugada, vê-se a festa dos melros Que se preparam para o vôo matinal, saída do ninho. E assim, o despropósito da água servida quase fétida Se veste de beleza, de graça e de muita música no ar
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... 10. Os pássaros
Rio, barranco, brisa, trilha, e olhares extasiados E uma vida telúrico vai se arranjando aos olhos Ali, um bem-te-vi intrometendo-se com a vida do passante: Bem-te-vi! Viu o quê? Visto é ele se equilibrando no fio. O cabecinha de fogo, escondendo-se nas galhas secas O casalzinho de mimosas aves marrons vigiando o rio.
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... 11. A Família
Antes que mais se levante o sol, esquentando o dia Uma família de anu preto aquece as asas para o vôo matinal Juntam-se com carinho tanto de fazer inveja ao passante. Outros se perdem no namorar, ali tão esquecidos Gostosamente unidos, se esfregando e cantando o amor. Passarada que fazem o belo espetáculo do raiar do dia.
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... 12. Os distraídos
No caminhar pelas barrancas do meu rio, há de tudo ver Ali, uma mulher distraída, perdidas em seus pensamentos, Com os olhos descansados nas águas mansas do rio Não se sabe o que ela pensa, mas o que vê, na vigília É um rio que passa, como passa nossa história, nossa vida E ali por perto, um cachorro procurando caminho...
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... 13. Rua do passado
Saindo do cercado da lagoa, lá para meio da cidade que dorme, Uma velha rua, das mais antigas, espreguiça nas cores da manhã. Em tempos escorridos, foi ela trilha dos pescadores rumo ao rio Na esperança de ter a farta pescaria, em tempos muito piscosos. A pequena rua dorme, nenhum sinal de vida, só sua história. A cidade que chega ao rio porque dele nascida e vivida.
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... 14. Caminheiros
Raios do sol pintam de vermelho a linha do horizonte. A luz. Na trilha o movimento vai se intensificando, os caminheiros. Sorvem eles o doce aroma da brisa da madrugada que vem do rio Se atentos e desligados das coisas comuns do mundo Podem ver a natureza coroando-o de belezas variadas A revoada de maçanicos, riscando o céu azul, uma arte.
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... 15. E mais
Vai passar o caminheiro, com suas passadas apressadas Pela placa em abandono indicando o bar ribeirinho Vai deparar em um galho seco com um gavião na espreita Passar pela solitária sete copas, onde foi dos angicos E vai ver, por fim, e certamente com muita tristeza O lixo que o presenteia o nosso rio. Ele porém vence tudo.
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... 16. Sou feliz
Assim, tenho as mais belas e encantadas manhãs. Tenho a visão serena do meu Rio São Francisco E se me detenho um minuto, ouço a sua doce canção. Tenho as pessoas que passam e abanam a mão e dão um sorriso. Tenho as flores coloridas e perfumadas As aves revoam no meu céu e me cumprimentam do alto
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............... Aí, com o coração pleno de amor, Agradeço a Deus, por tudo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

RIQUEZA DA ORLA - O RIO SÃO FRANCISCO EM SÃO FRANCISCO

“Formosa cidade de São Francisco -
que é a que o Rio olha com melhor amor”


Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas






A beleza de nosso Rio São Francisco, se mostra nos mais diversos mosaicos. Aos meus olhos nunca superam as expectativas que têm ressonância na alma.
Diante das quadras que se renovam a cada manhã ou tarde, fica a pergunta: por que este fantástico tesouro não desperta a atenção maior de vários setores de nossa comunidade em especial dos administradores?
São Francisco teria muito que ganhar com tanta beleza se ela fosse tomada como uma atração turística, ainda que própria do período das chuvas, quando tudo fica mais verde e surgem os banhados pluviais. E claro, sem se esquecer do cenário majestoso, sempre belo e esplendoroso do Rio São Francisco, nossa razão de ser.
Que cenário! O são-franciscano não sabe explorá-lo bem – talvez dele se aproveitem, sem muita atenção, as pessoas que fazem as caminhadas matinais e vespertinas. Aqueles que olham com mais cuidado, que colocam atenção maior no que veem e escutam, deparam e se deliciam com um cenário e um mundo maravilhoso.
Vejamos: na Escola Caio Martins, uma mata ciliar, um bosque muito bonito, plantado pelos alunos da instituição, o que pode se transformar em um parque onde as crianças vão encontrar muitos micos e aves em profusão. Depois passa-se pela tradicional rua do Quebra (João Pitanguy), cenário de belas páginas da história de São Francisco é possível, voltando no tempo, assistir às apresentações, de Badé e Pomba
Triste, à frente de mulheres de branco cantando e dançando para São Gonçalo. E pode mais, fazer parte de um rodada do Carneiro.
Chegando-se à Praça dos Pescadores, hoje moderna, com belos prédios e jardim, pensamento vai ao antigo porto, onde chegavam os pescadores do Quebra.
Dali, segue-se por uma mata ciliar - nativa, recompondo-se com essência vegetal variada, sobressaindo-se o angico branco, a gameleira e muitos pajeús.
Ponto de parada é o penedo onde nasceu a cidade, então Pedras de Cima, Pedras dos Angicos, hoje com a Matriz e o Cruzeirinho como ponto determinantes da civilização, ponto observado por cientistas viajantes no século XIX. Mais na frente, descendo para o cais mais antigo, embarra-se na quixabeira bicentenária, regada com as lágrimas de índias pela perda de seus guerreiros para a Iara com seu canto envolvente, misterioso.
Ali perto, então, o cais com a ala de frondosas mangueiras (lembrança de Zedir) seguindo o balaústre, debruçado sobre o rio que guarda tantas histórias, cantadas ou contadas pelos búzios de velhos pescadores como João Búzio e Gino na matina chegando da pescaria com canoa farta de dourados, surubins e curimatãs; quantas histórias desembarcadas nos vapores trazendo famílias de nordestinos que fincaram raízes em São Francisco - Barbosa, Ferreira, Ferraz, Figueiredo, Cavalcante e tantas e tantas. Vapores! Vapores!
O portentoso Peixe-Vivo e o Clube Campestre Carquejo, a sequência.
Depois, um bosque fechado onde se vê uma interessante e variada flora: aroeira, pajeú, canafístula - com suas flores amarelas nesta época do ano - e as periquiteiras forradas de brancas flores, também nesta época; o tamboril, que não pode faltar; são joão, juá-mirim, caraibinha branca (a perfumada), mutamba, gonçalo, quixabeira.
Passando para o outro lado do aterro, o alagado que se forma no período das chuvas, resultado do próprio aterro que separou a cidade do rio. Ganhou-se, pelo menos, o alagado e é dele que vem o encantamento da fauna alada: patorim, frango d´água, ariri, mergulhão, peixe-frito, curicaca (com intenso barulho) e, incrível, o maçanico que apareceu neste ano, tão imponente com seu bico comprido e recurvado, e peito vermelho e a casaca preta; garças e uma variedade formidável de pássaros – melros às centenas, sabiá, bem-te-vi, cabecinha-de-fogo, joão-de-barros e tantos outros.
No alagado próximo do Peixe-Vivo a incidência de matéria orgânica é elevada propiciando proliferação da taboa (ninhário dos melros) e aguapé, um tapete de flores roxas, onde passeiam os frangos d’água.
E lá no fundo do bosque o chamado da juriti, em triste lamento que diz Abdias (juiz de paz da cidade) tratar-se do desesperado chamado do companheiro, certamente arrebatado por um gavião.
Aos primeiros sinais do alvorecer, quando o céu se tinge de suave vermelho, bordando esparsas nuvens brancas, o mundo alado se desperta, confundem-se os cantos no fantástico alarido. De repente, saem em revoadas, grandes e pequenos. Maçanicos e mergulhões, em vôo alto; garças em vôos razantes, quase tocando as águas do rio. Uns, bordam o céu de pontos negros reluzentes; outros, pontilham de branco as águas vermelhas do rio.
Voltam todos, à tardinha, para o repouso noturno. Sem alarde, apenas pios de aconchego, de prece diária.
É um mundo fantástico que deveria ser mais explorado e estudado, tudo tendo como cenário de fundo, o Rio São Francisco, que todas as tardes, enche os olhos dos passantes com o seu maravilhoso pôr-do-sol. Precisa mais?
Aproveitando o embalo, vamos aprofundar na alma poética do homem, no se folclore, lembrando versos de canções que já embalaram muitos foliões e dançarinos, daqui e no Sul.

Do ariri: Vai tum, vai tum, vai tum, ariri, vai fazer seu ninho. Coitadinho do ariri, ele vai fazer seu ninho, na gaia do pau mais alto, lá na beira do caminho. (Dirceu Lelis, o nome ariri, aqui dado a essa espécie de marreco não é conhecido nos compêndios, como você observou - tente irerê)
Do maçanico: Maçanico, maçanico; maçanico do banhado; quem não dança o maçanico, não arruma namorado”.
É tudo tão belo, tão presente do Criador de todas as riquezas.



































segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BOI-DE-REIS EM SÃO FRANCISCO


"Todo mundo me dizia/ que este boi não saía/ meu boi está na rua/ com prazer e alegria/ saiu, saiu/ saiu daqui agora,/ saiu meu boi moreno/ neste instante, nesta hora".


A alegria invade a rua, despontando com toda volúpia comanda pelas caixas com repique de forte ritmo e o vozerio se levantando aos ares – uns cantando, outros aplaudindo e dezenas de crianças arreliando. É Natal. Os grupos esperam o dia 1º do ano, seguindo a tradição da jornada dos Três Reis Magos, para começar suas andanças, cruzando com os ternos dos foliões de Reis.
Tempos passados o Boi-de-Reis, do jeito da cidade, era mais modesto, menos espalhafatoso e acompanhado por um séqüito quase reduzido aos próprios participantes que levantavam com as precatas a poeira das ruelas da cidade – mais bucólico e romântico, pois se ouvia as caixas, então de cedro ou tamboril, com couro de veado, acompanhadas de violões e violas. A chamada do boi que guardava uma certa distância da casa onde ele era "comprado" já valia o espetáculo. O coral, geralmente de mocinhas e crianças dos bairros pobres da cidade anunciava: "Todo mundo me dizia que este boi não saia..." A letra era uma resposta orgulhosa a quem ousava desafiar que o boi não sairia. Depois da chamada, quando o boi chegava saracoteando e se postava mansamente à frente da casa, uma voz apaixonada ganhava os ares, parecia arrancada do fundo da alma gemendo o primeiro verso:

"Levanta, boi, vem comê capim/ ôi! dona da Casa, tenha dó de mim. Segunda-feira, sábado, domingo choveu, na porta do seu Domingos, foi que meu boi morreu!"

Explodia o coral:


"Ei boi! Levanta meu boi!. Ei! boi, abre a roda meu boi!. Ei boi, arremete o vaqueiro! Ei boi! abra a roda meu boi!"...


e boi ia obedecendo as ordens numa belíssima coreografia, com a chita colorida (o seu couro) se inflando como balão ao sopro do vento nos seus volteios frenéticos, sacudindo como se acometido de violento sezão – avançava no rumo da assistência e se estancava com os chifres em cima do peito da menina espantada; rodopiava e voltava para o meio do terreiro e, depois, arremetia-se para o outro lado da roda, rodando, rodando, até receber a ordem do sossego:

"Amaia meu boi! Amaia, meu boi! Amaia, meu boi!"

era para ele, mansamente, arrear as pernas e descansar um pouco (folga merecida e necessária para o dançarino que, do lado de dentro erguia a pesada armação de varas revestida de panos coloridos e couro, fazendo com que ela tremesse toda, sacudisse violentamente e, ainda exibisse uma terrível coreografia de rodopiar e investir contra vaqueiros e assistentes). Os vaqueiros e as catirinas, na folga, conversavam com os tocadores, outros brincavam com o público, enquanto uma equipe cuidava de reanimar o boi aplicando-lhe injeções e ministrando-lhe doses imensas de elixir. O coral retornava depois do descanso, precedido da mesma voz apaixonada chamando o boi para a lida e tudo se reiniciava até que fosse determinado ao boi:

"Vai saindo, meu boi! Vai saindo, meu boi"

e ele deixava a praça, sacudindo-se todo, para desaparecer na escuridão. Os repiques das caixas redobravam e ficavam mais frenéticos entrando na cadência do "Carneiro", e ecoavam as vozes:

"Olê-lê-lê, Carneiro dê! Olá-lá-lá, Carneiro dá! Quem quisé carneiro manso, manda o vaquero amansá",


e a praça era invadida pelas catirinas que com os vaqueiros repetiam as amarradas dos carneiros no ritmo das caixas e da música. Dançavam e dançavam até serem dispersos pela invasão inesperada do "Bicho Tamanduá" –

"Ei que bicho é aquele que vem acolá? É o bicho Tamanduá”!

E o bicho Tamanduá com sua roupagem de palha, da cabeça aos pés – imitando capa de carocha, vinha rolando no chão, agarrando e arrastando vaqueiros ou catirinas. Era uma dança muito dinâmica, agitada pelas batidas fortes e aceleradas das caixas com o reforço do coral numa cadência onomatopéica:

"que bicho é aquele que vem acolá? É o bicho tamanduá!”.

Estava o bicho a rolar pelo chão com vaqueiros e catirinas, quando adentrava na praça, dançando com graça e leveza, tão mimosa e encantada, a "Mulinha de Ouro" –

"Mulinha de ouro, é ouro só”!...

Depois do seu rápido e belo bailado ela deixava espavorida a praça que era tomada pela onça:

"Oiá a onça no pau! Cachorro nela!. Oiá a onça no pau! Cachorro nela”!...

Começava renhida luta entre a onça e os vaqueiros. Cessavam, enfim, as vozes e as caixas. Os agradecimentos. Meninos curiosos queriam proximidades com o boi e a mulinha – de preferência –, mas se encolhiam quando aproximavam a onça e o bicho tamanduá... O silêncio era de novo quebrado: as caixas voltavam ao repique e o coral retomava o refrão desafiador - "todo mundo me dizia...." – e, se arrastando, o grupo buscava outra praça, deixando saudades.
No dia 6 de janeiro fazia-se uma grande festa na casa do Imperador. Era a matança do boi. Muita dança e muito gole. Noite toda de alegria. Depois, só no começo do outro ano...
Não muito tempo era assim. Hoje, ocorreram muitas mudanças, são muitos grupos. Felizmente a tradição mantém-se firme e no gosto popular, principalmente das crianças (têm, às dezenas, os boizinhos de lata que zoam meses seguidos pelas ruas de seus bairros). Dois grandes ternos fazem a festa no dias atuais: o do Messias, mais tradicional e formoso, que substituiu o de Adão, o mais famoso deles por muitos anos, em São Francisco e outro, o do bairro Sagrada Família. Conquanto guardem muito da coreografia e da música tradicional, eles processaram muitas mudanças no folguedo. O que importa é que, entra ano e sai ano, desponta o boi nas ruas, invade a cidade, ocupa as suas praças e arrasta multidões noite à dentro, todos repetindo com imensa alegria: "Todo mundo me dizia que meu boi não sai..." e o teimoso todo ano sai com prazer e alegria.

Histórico

É uma representação dramática (feita ao ar livre) em torno da vida, morte e ressurreição de um boi (o personagem travestido de boi mete-se embaixo de uma armação de madeira coberta por uma capa, a cabeça é feita da carcaça de um boi, coberta de papel de seda). O enredo apresenta Pai Francisco, vaqueiro cuja mulher, Catirina, está grávida e tem o desejo de comer o fígado ou o coração de um boi. Como eles são pobres, Francisco resolve matar o boi de estimação do patrão. Na hora que o boi está sendo morto, chega o dono e exige que o animal ressuscite. Entram, então, em cena, inúmeros personagens: o doutor, o curandeiro, o bicho tamanduá (folharaz) a onça, a mulinha-de-ouro, as catirinas e vaqueiros.

Segundo Câmara Cascudo o “boi” parte desses dois personagens: Pai Francisco (preto velho) e Mãe Catirina (sua mulher) . Pai Francisco mata um boi muito precioso do seu patrão para satisfazer os desejos da mulher, Catirina. O auto reproduz a história, mostrando a morte e repartição das entranhas do animal e depois o trabalho do curador para ressuscitá-lo, diante da revolta do dono.
Deve ser a razão de aparecerem tantas entidades nas histórias: índios, curadores, bichos – muitos de acordo com a região. É o mundo fantástico das entidades de acordo com o gosto e crença popular.
O boi-de-reis de São Francisco guarda muita semelhança com o bumba-meu-boi do Maranhão, conforme descrição da Câmara Cascudo. A diferença existe é quanto a ocorrência. Enquanto em São Francisco se dá no solstício de Verão, mais propriamente no mês de janeiro, no Maranhão ele ocorre de maio a outubro, com o clímax em junho. No Maranhão, segundo registra a Comissão Maranhense de Folclore, o bumba-meu-boi “é um brinquedo de fé e devoção, uma forma de oração. Ainda hoje o boi é concebido e dançado e cantado em homenagem a santos católicos, mas também a entidades espirituais cultuados nos terreiros de tambor de mina, umbanda, pajelança, entre outros. O catolicismo é uma das concepções religiosas mais presentes na brincadeira. Essa ligação é estabelecida a partir da relação dos boieiros com os santos do período junino e, especialmente, com São João.”
As personagens do boi-de-reis de São Francisco origem, também, no bumba-meu-boi do Maranhão que refletem a multiplicidade de símbolos ritos e mitos provenientes da ligação estreita entre o universo das religiões afro-maranhense.
O boi-de-reis de São Francisco não guarda nenhum liame com a religiosidade. Não passa de uma recreação, folguedo folclórico. As músicas entoadas não fazem nenhuma alusão a divindades ou entidades, mas tão-somente contam a história do boi e narram as interferências de várias personagens, como numa ópera bufa.


MÚSICA:

Todo mundo me dizia
Que esse boi não saia
Meu boi está na rua
Com prazer e alegria

Saiu, saiu daqui agora
La vem meu boi moreno
Neste instante nesta hora

Levanta, boi
Vem comer capim
Ei dona da casa
Tenha dó de mim

Segunda-feira
Sábado e domingo choveu
Na porta de ...
Foi que meu boi morreu

Ei boi... Ei boi...
Levanta meu boi
Ei boi... Ei boi...
Abra roda meu boi
Ei boi... Ei boi...
Afacera meu boi
Ei boi... Ei boi...
Amaia meu boi
Ei boi... Ei boi...
Vai saindo meu boi


CANTO DAS CATIRINA (grupo formado por homens com vestimenta de mulheres lembrando a mulher do pai Francisco)

Olê, lê, carneiro dê!
Olá, lá, carneiro dá!.
Quem quisé carneiro manso,
Manda o vaquero amansa.

Larga seu marido, muié,
Vem morá mais eu.
Seu marido é ruim, muié,
Quem é bom sô eu.


BOIS DE REIS MAIS TRADICIONAIS DE SÃO FRANCISCO

1. Boi do Adão, do Matadouro, hoje Santo Antônio (não existe mais)
2. Boi do Messias – bairro do Quebra
3. Boi da Sagrada Família

Existem, a cada ano, boi de reis de crianças, principalmente no bairro Quebra e Rua Direita que alegram bairros da cidade por todo o mês de janeiro.

FESTIVAL DO BOI DE REIS

Em dois anos seguidos São Francisco está revivendo o esplendor deste folguedo que já fez tanta alegria ao são-franciscano. Neste ano a secretaria municipal de Cultura promoveu o II Festival do Boi de Reis apresentando dez grupos (de todos os bairros da cidade) na Praça Centenário, reunindo um formidável público na noite do sábado 7. O cenário ficou bem apropriado com a instalação uma arquibancada que pode acomodar, confortavelmente, muitas pessoas, completado com ótimo serviço de som.
O público da arquibancada e espalhado em volta das cordas de segurança, na avenida Presidente Juscelino, aplaudiu com entusiasmo o espetáculo. Luzes de refletores, câmaras filmadoras e fotográficas, incendiaram a praça e o primeiro boi chegou com toda animação. Sentiu-se, com ele e seu séquito, em plena função, o quanto o são-franciscano gosta desse auto natalino – gritos e palmas marcaram a intensidade da emoção. Outros grupos foram chegando com o mesmo entusiasmo – dos dançarinos e do público que, na parte do chão, passou pelo isolamento e fez uma grande roda bem próxima dos protagonistas maiores do espetáculo.
Há muito não se via um público tão expressivo, participativo e feliz, como naquela noite, acompanhando cada passagem dos grupos. Tanto entusiasmo para se apresentar que, de última hora, apareceu o “Boi de Reis do Centro”, que não fora inscrito. Assim mesmo conseguiu um espaço na final para dizer também que seu boi saiu e estava na rua com muito prazer e alegria.
São Francisco foi revivida e, mostrou, mais uma vez, a força do seu folclore, a beleza dos seu folguedos, o prazer e envolvimento do seu povo.
Adalgisa – da secretaria de Cultura – e sua equipe que tanto lutou na preparação do evento e conseguiu realizá-lo com tanto brilhantismo, estão de parabéns. Eles valorizaram e ajudaram a perpetuar a nossa cultura. E mais, fizeram com que essa rica manifestação tivesse maior expressão ainda, considerando que, na região, é São Francisco a único município que mantém a tradição do boi de reis com tanta expressão e número de grupos.

PREMIAÇÃO

O júri, ao final da apresentação dos bois, decidiu observando os seguintes quesitos. Saiu vencedor o tradicional boi de reis do Quebra, comandado pelo Messias; 2º lugar Boi de Reis da Sagrada Família e 3º lugar o boi de reis do bairro Bandeirante.
Foi uma belíssima festa.


















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A ENCHENTE DE 2012








Porto do Quebra

Rio São Francisco, meu muito amado Rio São Francisco, tão belo, gracioso e surpreendente em todas as eras do ano. Na seca, quando mostra seu corpo quase feito de areia dourado - nas praias ou coroas que crescem como ilhas onde faz o Quem-quem o seu ninho; tempo em que escorre no seu lento caminho, com tanta suavidade que sua música somente se ouve no silêncio da noite ou na frescura da aurora; que tem águas claras que se mostram de verde suave; o espelho reluzente esconde seu leito raso e dá de pensar que está tão farto de água; os barrancos se mostram de todo, com o emaranhado do capim braço-duro segurando o barro e as raízes do pajeú fincadas em suas pedras - como é belo. Na cheia, o espetáculo nos remete ao grandioso. Não mais barranco com capim - as águas fortes, barrentas, lambem as copas das árvores, onde o canoeiro atraca sua embarcação e pula à terra pelo galhos; desce com força incrível, águas revoltosas, ondas saltitantes, levando tufos de garranchos, pequenas ilhas de aguapé e vai fazendo uma faxina geral no que o homem, sem escrúpulo ou saber do belo, nele atirara seus restos. Na enchente ele apronta muito, mas não assusta tanto como quando está seco. O medo da falta de água é muito maior que o excesso dela. A falta de se remedia; o excesso deixa mais lucro, ainda que se perca uns roçados, mas fica uma terra bem molhada e adubada. Na seca a travessia das barcas é prejudicada porque o canal fica entupido de bancos de areia, tão difíceis de serem removidos; com a enchente não há esse risco - a preocupação é com os portos que precisam ser mudados, em busca de pontos mais altos - a travessia, assim, vira um passeio de muitos minutos, quase hora no desce e sobe de mais lonjura.
A enchente, por não ser repetida a cada ano, quando vem, vira atração. A cidade entorta-se, todo movimento vai para orla - da Praça dos Pescadores até à Lagoa da Luzia. Na praça dos Pescadores o porto improvisado. E ficam apinhados os bares - de viajantes e curiosos, que ver movimento é bom. Na frente da Igreja, onde se inaugurou a cidade de São Francisco, então Pedras de Cima, ali do Cruzeirinho, tendo ao fundo a majestosa torre da matriz de São José, pára-se para contemplar extasiado a carreira do rio com suas águas velozes, roncando, a beijar as pedras onde em noites enluaradas cantou a Iara, a nossa sereia, e os troncos do pajeús remanescentes. Mais na frente é grande a concentração de pessoas junto à balaústre com os pés quase dentro d´água, tendo à frente o belo Peixe-Vivo, de tanta fama e histórias. Passa-se, depois pela esquecida barca de um belo projeto que não vingou e,ali, a cada ano, se entupindo de lama - que desperdício. Depois, a visão é de um ranchinho plantado nas barrancas do rio, agora ilhado. Chega-se ao belo clube campestre Carquejo que virou uma ilha inundada - só o telhado não foi tomado pelas águas. Nossa! Que beleza! Diz o passante diante do espetáculo sem lembrar dos prejuízos da turma do clube. Por fim chega-se à ponta da Lagoa da Luzia que se transformou e um imenso lago - aí sim, que beleza e sem causar prejuízos.
O São Francisco beirou os dez metros (9,75m no domingo 15). Deixou muita gente apreensiva, mas não causou tantos estragos nas propriedades barranqueiras. Muita gente foi socorrida pela Defesa Civil Municipal, sendo alojada em prédios públicos, na cidade. Depois, abaixando as águas, voltam às suas casas e a vida retorna ao normal. Assim foi sempre. Assim será, pois o rio tem sua missão - correr buscando o mar, seco ou cheio, mas sempre ali. Graças a Deus.














Bar Recanto das Pedras, na barranca do Rio.


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Mirante da Matriz

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Pesca do Camarão


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Peixe-Vivo



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Clube Campestre Carquejo



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Ranchinho isolado


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Lagoa da Luzia


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Para os barranqueiros são-franciscanos distantes, que não viram a beleza da enchente deste ano, passou umas fotografias. É para matar saudades barranqueiras.