Postagens populares

sábado, 17 de julho de 2010

ADEUS, MEU RIO SÃO FRANCISCO








Causa arrepios a visão de um quadro estarrecedor: bandos de mergulhões e quem-quens catando moluscos no meio do rio com a água mal cobrindo seus pequenos pés. Já não bastavam as imensas coroas e bancos salientes de areia entupindo os canais do rio para tanto nos assustar e criar uma perspectiva tenebrosa quanto ao destino do nosso consagrado rio. Agora, bandos de aves passeiam em suas águas sem molhar as penas. Essa visão nunca, jamais ter diante dos meus olhos acostumados ao namoro diário com o meu rio.
Ano a ano a situação do meu rio fica mais crítica e as perspectivas são as piores, afastando-se a esperança de um reversão a curto prazo se os cerrados ainda continuam sendo devastados, e há a ameaça de se liberar mais e mais desmatamento – do cerrado e da mata seca. Ganha-se por um lado, mas perde-se muito do outro. Na elaboração de leis modificativas de situações já estabelecidas numa região seria aconselhável consultas locais, ouvir as pessoas, trocar de idéias e vivenciar os problemas vividos pelos homens da terra – o que sabe as veredas e as nascentes que vão alimentar o grande rio. No caso das questões hídricas tudo é muito mais sério. Vê-se, de um lado, a situação dos produtores, a necessidade de ampliar as áreas de desmatamento para plantio de lavouras e pastos. No papel é fácil. A realidade é outra. No cerrado são-franciscano, por exemplo, o que se vê é outra situação. Não tem lavoura, nem pastos. Vai restando o deserto quando se tira a cobertura vegetal para alimentar as bocas de fornos das usinas. Ganhou-se um bom dinheiro por uns tempos. E depois? O que sobrou recompensa? Se alguém tem alguma ilusão a respeito, deveria visitar as áreas – imensas áreas devastadas – no distrito de Santa Izabel de Minas. Dezenas de veredas morrendo, muitas totalmente extintas. Vá percorrer o Vieira e o Acari e depois dê uma chegada no areal em que vai se transformando o Rio Pardo. Ali está o retrato de uma situação – a devastação do cerrado.
O Rio São Francisco é o retrato mais próximo e visível da situação. Longe daqui técnicos do governo ainda imaginam coisas espetaculares – transposição e hidrovia. No caso da primeira a cada dia vai ficando mais complicado, pois a água está diminuindo, diminuindo. No caso do segundo é possível uma transposição - de hidrovia para rodovia. É só esperar.
Vou lembrar aqui o final de uma crônica que faz parte do meu livro (neste Blog) “Do Cerrado às Barrancas do Rio São Francisco, com o título o rio São Francisco seca:
“Muito mais triste e pior será, se nada for feito para salvar o cerrado e sua gente. É factível de se imaginar, melancolicamente, se isso acontecer – ou deixar de acontecer o socorro – que alguém diante da calha do rio, de um topo qualquer, possa dizer com saudade a um jovem: - meu filho, este imenso trilho de areia que suas vistas hoje contemplam, outrora foi um majestoso rio, o mais importante do Brasil, o então falado rio da unidade nacional.”


Registro fotográfico da situação do Rio São Francisco no mês de julho de 2010, quando da reportagem feita pela Inter-TV.

.
.
.
.
.
.
.
.

sábado, 29 de maio de 2010

PARA FICAR NA HISTÓRIA

Dois dias de intensa atividade cultural para ficar na história de São Francisco, proporcionaram a Associação Cultural de Difusão Voz do Morro e a Cultuarte com o Encontro de Ternos de Folia e Fórum Intermunicipal de Cultura Tradicional. As instalações do Centro Cultural Católico, a Praça Centenário, União Operária e ruas da cidade ganharam colorido e movimentação com o ir e vir de dezenas de foliões, com toalhas brancas no pescoço, levando seus instrumentos. Espaços ocupados por jovens em diversas oficinas – teatro, percussão, entre outras.
Meio à azáfama cultural e inebriante entusiasmo, ilustres visitantes que tomaram parte do evento como palestrantes ou assistentes. Destaco com satisfação a presença do folclorista e escritor Domingos Diniz, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, e Affonso M. Furtado Silva, conselheiro do Consenso Estadual de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Federação Fluminense de Terno de Folias. Diniz, enfocou, em sua palestra, aspectos interessantes da cultura popular e apresentou aos são-franciscanos o belíssimo livro que escreveu, com Ivan Passos Bandeira da Mota e Mariângela Diniz – “Rio São Francisco: Vapores & Vapozeiros”. Afonso homenageou o folião guia mais antigo, entre os presentes – Tino – com a comenda Estrela Guia ( que vem da Catedral da Colônia, Alemanha), e faixa de folião, conferida pela Federação. Lembro que anos atrás esta homenagem foi prestada ao inesquecível folião Adão Barbeiro.
De beleza pura, com toda a expressão de singularidade da terra, foram as apresentações de diversos ternos de folias, em duas noites. Algumas com as tradicionais saudações dos reis à lapinha; outras com santo de devoção e teve até saudação especial à Nossa Senhora do Parto. Depois de cada saudação, o lundu ou chula e quatro. E teve a apresentação de grupos de jovens e mulheres, com a catira e dança de rua e grupos das oficinas promovidas no evento: percussão e teatro.
Para encenar as apresentações, muito especial, um mimo para os são-franciscanos e visitantes, uma verdadeira obra de arte e de alegria. Em um caso a mágica performance de Ana Patrícia, uma explosão de sons na viola de doce suavidade na voz, uma belíssima combinação. Por fim um passeio com o Tambolelê que, hoje, é uma expressão internacional – foi um presente especial para São Francisco assistir o show do grupo que há pouco se exibia no outro lado do mundo.
Dias maravilhosos que nos proporcionaram Tone Raposo e Ronaldo, tanto fazendo pela cultura são-franciscana e região.
Abaixo um pequeno painel de fotos do evento.
























.
.
.
.
.
.
.
.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

UMA GRATA VISITA

Recebi um reconfortante e-mail de um amigo que visitou este blog: Romeu Rodrigues.
Fiquei muito feliz por este reencontro, através das palavras, ainda mais por ele me levar a um passeio saudoso à nossa querida Caio Martins de Esmeraldas.
Obrigado, Romeu, por suas generosas palavras e estímulo., que reproduzo em meu blog como registro de uma grande amizade, o que faz também ao ser humano.

“Querido Professor João Naves,
Estava a navegar na rede, guiado pela saudade das coisas de minha raiz, quando me deparei com o seu blog e me encantei com tantas informações e boas lembranças.
O vigor e a profundidade do trabalho me encantou pela riqueza de detalhes das histórias do nosso povo.
Quanto ao brilhantismo intelectual do Professor/Autor, muito menos, pois graças a Deus tive a honra e o privilégio de desfrutar dos ensinamentos, da dedicação abnegada aos alunos da FUCAM, enfim de ter me torneado o caráter com as generosas mãos do Querido Mestre.
Contido no regozijo de minha alma, um forte abraço do seu eterno aprendiz.”

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

EU E BRASÍLIA


Março de 2010, em companhia de minha esposa Vilma e do meu filho Eduardo e esposa, Nádia, ganhei o sertão urucuiano rumo a Brasília-DF. Voltaria, enfim, à Capital e a motivação foi a formatura de minha neta Larissa Naves no curso de odontologia da UnB, cortando o cerrado urucuiano e parte do planalto goiano até chegar à capital debaixo de muita chuva. Voltei ao passado, com imensas saudades...
Há trinta e um anos, com o mesmo tempo de chuva, estive em Brasília, e não mais. Acompanhei, com José Ribeiro – motorista da Fucam – o Cel. Almeida em uma viagem que teria como roteiro Belo Horizonte – fazenda Três Marias, no município de Bonfinópolis, Núcleo do Urucuia, São Francisco, Januária e Juvenília – Núcleo do Carinhanha. Saímos do roteiro, no primeiro dia de viagem, indo parar em Brasília, pois chovia e chovia demais, tornando intransitáveis as estradas de acesso a Bonfinópolis via João Pinheiro e, mais adiante, via Paracatu-Unaí. De impedimento a impedimento decidiu o Cel. Almeida que iríamos para Brasília. Estávamos na semana do carnaval de 1979, ano da grande enchente do vale do São Francisco.
Chegamos em Brasília debaixo de muita chuva. Céu turvo e fazia muito frio e nós sem agasalhos, pois deixamos Belo Horizonte com tempo seco. A noite caía. O Cel. anunciou que iríamos ao aeroporto aguardar a chegada da esposa dele que viria de Belo Horizonte. Gostei da idéia, pois assim poderia apreciar a chegada e saída de aviões, os jatos que tanto me fascinam. Eu guardava na lembrança a bela imagem dos Constellation, Douglas DC-7 – que levou a delegação brasileira à Europa da consagradora viagem de 1958 quando foi campeã do mundo -, e o pequeno Piper, Bonanzas. Seria a oportunidade de conhecer a nova geração, os jatos que não vira de perto. O que seria um deleite se transformou, no entanto, num verdadeiro suplício. Um vento frio, cortante, soprava na sacada do aeroporto, de onde tínhamos visão panorâmica da pista e pátio. Tremíamos como vara verde. Os lábios do Zé Ribeiro estavam roxos e pensei que igualmente deveriam estar os meus. Não adiantava o recurso de apertar os braços sobre o peito, o frio penetrava do mesmo jeito. Fiquei imensamente satisfeito quando o Cel. Almeida nos chamou dizendo que sua esposa não viria, ficara retida no aeroporto de Belo Horizonte, sem teto, também por causa da chuva que lá chegara depois de nossa partida. Fomos então para o apartamento dele. Foi a primeira vez que vi os famosos blocos residenciais de Brasília indo ao apartamento do coronel. Não deu para apreciar muito coisa, pois era noite e chovia muito. O apartamento estava fechado há algum tempo, estava com os sofás cobertos de panos que foram retirados com a nossa chegada. O coronel anunciou que sairia para cuidar de alguma coisa para comermos. O frio era ainda muito intenso o que me levou a saber dele se não tinha no apartamento uma bebida quente. Tinha, um litro de conhaque que bebemos, todo, sem cerimônia. Mais tarde o coronel chegou com uma pizza – o nosso jantar.
No outro dia, pela manhã, ainda com muita chuva, o coronel nos chamou para um passeio e lá fomos, levados pela filha dele, Maria Coeli, em um fusca. Saímos por uma avenida larga, comprida, deixando, de lado, os conjuntos de blocos. Bem longe o fusca deixou a rodovia entrando por uma pequena estrada que deu em um enorme portão. Dois homens com barbas cerradas, vestidos de batas negras, com capuz em forma piramidal e com medalhões dourados, muito grande, presos por grossas correntes, no pescoço. Deram boas vindas aos visitantes e abriram o portão, depois da identificação do coronel. De lá fomos a uma casa, quase à entrada. Ao descermos do fusca deparamos com várias pessoas chegando ao local, na maioria vestida com as batas negras, capuz e medalhão no peito. O céu estava coberto de nuvens negras, caía uma chuva fina, gelada, tudo criando um ambiente quase lúgubre. Zé Ribeiro estancou-se na porta do fusca, com os olhos arregalados, não conseguindo dar um passo à frente. Disse que não sairia do carro. Lá fomos nós. Fomos recebidos por uma senhora de cabelos negros, luzidios, semblante serenos, aparentando ter mais de 40 anos. O coronel anunciou que era a Tia Neiva que fiquei sabendo, logo a seguir, ser a líder espiritual daquele local que se chamava Vale do Amanhecer, que gozava de muito prestígio no meio político da Capital Federal. Apresentações feitas o coronel foi, com Tia Neiva, para uma sala reservada enquanto eu e Maria Coeli fomos visitar as instalações do complexo guiados pelo esposo da Tia Neiva. A primeira instalação que visitamos foi a livraria onde se via estampadas várias obras de cunho espírita, mais delas falando sobre o trabalho desenvolvido no Vale e, em especial por sua líder. Entre as publicações uma chamou-me a atenção. Falava sobre um planeta que se aproximava da terra e que causaria graves mudanças no clima, aumentando o nível das águas do mar, causando imensas inundações de terras litorâneas, avançando pelo interior. O local onde fora instalado o Vale do Amanhecer seria dos poucos preservados. O fato me causou forte impressão pelo tanto que chovia. Mais tarde, porém, teria motivos maiores para dobrar a preocupação. Continuamos o giro. O Vale tinha várias instalações, muitas casas para abrigar pessoas carentes, pontos de pouso para visitantes de cidades distantes e muitos galpões. O local é fantástico. Místico. Tem uma aura especial que pode até provocar uma sensação de paz... e medo diante do desconhecido. Chegamos a um plano superior onde foi construído um lago, tendo ao fundo, um palco muito grande e, nele, um altar de pedra forrado com tolha branca. Dos lados do lago, lápides de mármore, numa delas vimos um homem deitado de bruços com a testa apoiada nos braços, inerte, em profundo transe contemplativo. Quis saber o significado daquilo e o esposo de Tia Neiva disse que aquele lago era para atrair forças positivas e luzes do universo. Que eram realizadas cerimônias especiais para os contatos e fortalecimento espiritual. Mais abaixo foram erguidas algumas pirâmides. Fomos a uma delas. Numa parede frontal, ao lado da porta de entrada, um nicho e, dentro dele, imóvel, um dos homens de bata negra. No interior da pirâmide havia uma grande bacia de pedra, como uma pia batismal, que estava cheia de sal e, sobre ela, um pêndulo que vinha do alto da pirâmide tendo na ponta inferior um metal em forma de triângulo apontando para o sal. O marido de tia Neiva sugeriu que experimentássemos do sal que tinha força cósmica. E, logo a seguir perguntou se queríamos um passe o que seria feito por um dos guias ali presentes. Não aceitamos nenhuma das duas opções. Passamos a um plano inferior adentrando em um enorme galpão com uma largura próxima de 20 metros e o comprimento superior a 50 m. O interior era dividido em três partes – a nave central, mais larga, com bancos na parte baixa; cadeiras comuns, em menor quantidade; no maior e na parte mais elevada, cadeiras mais confortáveis e em número mais reduzido. Era a distribuição de acordo com a graduação dos obreiros das funções ali desenvolvidas. Nas laterais, separadas por uma passarela de 2m de largura, via-se vários compartimentos com a frente vedada por cortinas e, no interior delas, guias para receber as pessoas para os passes espirituais. No fundo,tomando toda a extensão da parede, um reservado fechado com grossa cortina. Saiam de lá muitos gritos e profundos gemidos. O marido de Tia Neiva informou tratar-se de espíritos rebeldes que estavam sendo expulsos. Tétrico.
Terminada a visita encontramos o Cel. Almeida na sala da casa de recepção conversando com Tia Neiva. Despedidas feitas, voltamos ao fusca onde encontramos Zé Ribeiro deitado no banco de trás, com a cara enterrada no banco. Não me assustei como Zé Ribeiro, mas sai dali impressionado, admirando aquele trabalho espiritual e social, carregado de misticismo, embora o clima chuvoso nos ter levado a um estado de tristeza o que pode ter prejudicado uma melhor visão de tudo o que nos foi mostrado.
À noite visitamos o filho do coronel, Fernando. Conheci outro bloco residencial. Voltamos ao apartamento do coronel. Ainda chovia, e muito. Aí ele nos assustou dizendo: “Vamos viajar amanhã. Passando pela estrada de Cabeceira de Goiás é um pulo até chegar à fazenda Três Maria. Coisa de 3 horas. Eu e o Zé nos olhamos apreensivos, pois ainda chovia muito.
Na manhã seguinte, como anunciara o coronel, viajamos sem levar um pedaço de pão como lanche porque três horas depois estaríamos na fazenda Três Marias.
Passei dois dias e duas noites em Brasília. O que vi foi uma imensa avenida, o Vale do Amanhecer, o aeroporto e dois apartamentos. De lembrança levei um livro do Vale do Amanhecer, aquele do planeta que se aproximava da Terra e iria exercer uma forte influência sobre ela - óbvio que depois de quatro dias de chuva ininterrupta e ainda de ter de penar mais dois dias seguintes, presos em estradas enlameadas debaixo de muita chuva sem poder chegar à fazenda Três Marias, fechando o roteiro da vigem em Buritizeiro, tudo debaixo de chuva. Em Buritizeiro, com o coronel querendo prosseguir na viagem para o Norte, sugeri que telefonasse para a diretora da Escola de Januária, Elzita, perguntando sobre as condições da estrada. Em reposta ela fulminou: “Coronel, vai para casa, o aterro (estrada de Januária) está debaixo das águas do rio São Francisco. Começava a terrível enchente de 79. Então como poderia ler o fatídico livro? Nunca o abri.

Trinta e um anos passados da minha segunda viagem a Brasília - a primeira foi em minha lua de mel, em 61, quando a capital era uma criança. Se das vezes anteriores pouco vi da cidade – a primeira foi quase de passagem e na segunda debaixo de três dias de intensa chuva – desta vez pude conhecê-la um pouco mais. Nem tanto quanto queria, pois não dei sorte nas visitas à Torre de TV (fechada com avaria); Catedral (fechada para reforma), memorial JK (proibido fotografar) e Praça dos Três Poderes em reforma para os festejos do aniversário. O que vi, no entanto foi o suficiente para ficar orgulhoso com o meu País, pela grandiosidade do povo brasileiro – poucos países no mundo têm uma capital como a nossa. A engenharia urbana, os jardins, os parques, os monumentos, a amplidão, a paz.

Agora de novo em Brasília – no DC como a tratam os locais dom carinho. Ainda que persistisse a chuva, procurei, nos dias que passei por lá, viver o tanto quanto possível a memória do grande mineiro, responsável pela criação da cidade, o inesquecível presidente Juscelino, o homem da fé, da concórdia, dos sonhos. Lá à entrada do memorial, fitando a imensa estátua dele plantada em uma torre, olhando o infinito, ouvi sua voz vaticinando, com sua “fé inquebrantável nos destinos do Brasil”: “Tudo transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã”. E aconteceu.
Do otimismo ilimitado de Juscelino, como os infinitos daquele planalto, levei o pensamento a outros grandes artífices daquela obra do século: Lúcio Costa, o arquiteto que inovou o urbanismo com um plano inusitado, traçando a cidade na forma de uma cruz, para tantos, lembrando um imenso avião; Oscar Niemeyer com suas linhas modernas, surpreendendo o mundo da arquitetura, prédios de concreto que se projetam como luz resplandecente sob o céu azul profundo, sem limites, como um sonho, uma fantasia; Burle Max com seus jardins, os bosques, tudo tornando a cidade mais aprazível; Israel Pinheiro o grande administrador da obra fantástica e o engenheiro Bernardo Sayão. São nomes que, diante dos quais, devem se inclinar os brasileiros com orgulho e reconhecimento.
Voltei mais no tempo, encontrando o cientista Luis Cruls que chefiou a primeira expedição para demarcar no bravio planalto central o sítio onde deveria se erguida a capital do país, sonho de muitos anos antes de Dom Bosco (dizem os historiadores que Israel Pinheiro tinha uma imagem de Dom Bosco em seu escritório e que, com ele, conversava e cobrava quando as coisas não andavam bem nas obras).
Brasília, parabéns, cidade moça. Parabéns pelos cinquenta anos, por seu esplendor e pelo tanto que significa para nós brasileiros. E nossa singela homenagem ao presidente Juscelino e aos seus imediatos companheiros na implantação da capital, entre eles, sem dúvida, os humildes candangos que se fizeram, na verdade, uns gigantes.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VAPORES & VAPOZEIROS – UMA GRANDE OBRA NA HISTÓRIA DO VALE


Os escritores piraporenses Domingos Diniz, Ivan Bandeira da Mota e Mariângela Diniz lançaram, na sexta-feira 5, em Pirapora, o livro Rio São Francisco: Vapores & Vapozeiros. O evento foi à altura da obra, com a presença de velhos vapozeiros, oficiais da Marinha sediados na Capitania, em Pirapora, prefeito municipal e secretários, e um grande número de pessoas da sociedade piraporense e de outras cidades, como de São Francisco – lá estivemos, eu e o vereador João Herbber Gomes de Brito.
O livro resultou de um trabalho exaustivo de pesquisa e entrevistas e, depois, da procura de quase cinco anos por um patrocinador. Enfim, a realização. Uma edição muito bonita, caprichada mesmo – 355 páginas, capa dura, formato 28 x 21, com ilustrações muito bonitas e históricas de todos os vapores que singraram as águas do São Francisco.

Uma obra que serve ao deleite da leitura, pela linguagem agradável, e à pesquisa, pelo rico conteúdo – a história da navegação no Rio São Francisco, o que é tão inerente à vida das populações ribeirinhas. As histórias que são contadas através das entrevistas dos vapozeiros levarão os mais antigos a empreenderem viagens que fizeram no passado e, com isso, a sonhar com seus passeios e aventuras. Levarão os jovens que não conheceram os vapores a aprenderem um pouco da história de sua civilização, de seus ancestrais.
O vale do São Francisco precisava de um livro de tamanho porte, mais pelo conteúdo. Por isso, foi o lançamento um acontecimento tão aguardado e festejado, um evento que, certamente, não será facilmente superado pelo valor literário e histórico.
Na noite de autógrafos, destacou-se a fala de Ivo das Chagas que escreveu o prefácio da obra. Ele passeou pelo mundo que nos é tão caro – o cerrado, “pai das águas” e veredas, “mãe das águas”, como ele, com tanta propriedade e inspiração batizou. Levou a todos a um belo passeio ao universo onde brota a água para alimentar o São Francisco, e o fez com muito amor e emoção. Falou das civilizações ribeirinhas e da sua formação, tudo ligado ao rio e, com ele e através dele, com a navegação. Ivo deu uma aula de universalidade do cerrado e recomendou: “Depois de ler o Rio São Francisco: Vapores & Vapozeiros, ninguém tem mais o direito de ignorar nosso rio, pois os segredos, as magias e os mistérios que o cercam, e nele se inserem, estão todos aqui magistralmente explicitados”.
E uma grata surpresa veio depois na fala do prefeito municipal de Pirapora que em sucinto comentário, falou da importância da obra para Pirapora e para todo o São Francisco. Ele foi além, no reconhecimento da importância da história e da cultura na vida de um povo: convidou os autores para escreverem a história de Pirapora para marcar o seu centenário, em 2012. Convidou-os para tratar com ele, em seu gabinete, o contrato para a realização do projeto. Aplausos!
Os amantes da cultura e da história, o cidadão que vê quão importante é preservar esses tesouros da civilização, vêem como é amplo o olhar do prefeito de Pirapora que, com tal interesse e comprometimento, estabelece uma ponte (que de fato existe, mas que para tantos administradores não é vista) entre os tempos atuais com fatos germinados nos primórdios da humanidade e que vêm sendo cultivados, civilização após civilização engrandecendo e enriquecendo-a.

Complementando:

No dia 9 o livro foi lançado em Belo Horizonte e foi um sucesso. Fiquei sabendo através do meu amigo Walter de Oliveira que teve a gentileza de me telefonar por volta das 23 horas para dar a notícia. Chegara da solenidade de lançamento e ficou encantado com a obra.
Aqui em São Francisco, quando apresentei o livro na reunião do Conselho Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico, foi grande a emoção e muitos já manifestaram o desejo de ter, ao seu alcance a bela obra.

No embalo, lembrando a passagem do vapor Benjamim, recentemente, em nosso cais, marquei o fato com um pequeno poema., lembrado por minha filha Beatriz.



O BENJAMIM PASSOU

Ao mover a pá, deixando o cais,
Subiu uma espuma de água
Gotinhas soltas voltaram ao rio
Em forma de despedida e saudade

Saudades nos olhos de quem ficou
Estendendo o olhar ao vapor que partia
Prendendo no peito o apito da despedida
Tantos corações ele levou ao passado

Quantos sonhos foram revividos
Quantas fantasias criadas
Lá se foi o Benjamim como tantos
Que passaram por nossas vidas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

PEQUENA CRÔNICA PARA UM ANJO

JNM

ZILDA ARNS - ser iluminado que se encantou e voltou ao pai, mas que nos deixou um rastro de luz. Ela nos deu a lição, através dos atos, como enfrentar as questões dos direitos humanos – dando, em primeiro lugar, dignidade e respeito ao ser humano, no caso dela as crianças. Não se valeu de proselitismo, de teses, de decretos, de falácia e de vitrine política para tratar dos direitos humanos. Ela tomou o evangelho (a multiplicação dos pães) como paradigma de sua missão no combate à destuntrição infantil, com o que socorre famílias carentes. De uma pequena célula levou, depois, a esperança a todos os cantos do Brasil e, na sua sacrossanta missão, formou uma legião de mais de 250 mil anjos.
Amor, solidariedade, respeito humano, carinho, tantos adjetivos que colocaram esse anjo perto de Deus e que levou conforto, paz e a vida a tantos lares. Ela não teorizava, não escrevia planos (decretos) mirabolantes para tratar dos direitos humanos – pegava as ferramentas que dispunha – coração, mãos e muito amor – e ia diretamente à luta, fazendo. Se falava, tinha como preocupação multiplicar as informações, o que registramos aqui em nossa São Francisco, nos bairros pobres, onde foi plantada a dadivosa semente da Pastoral da Criança, que vicejou com toda pujança. Não ficou no alardear direitos humanos – ela os realizou plenamente.
Um anjo formidável que com sua legião de anjos mudou a vida de milhões de crianças no Brasil, servindo de exemplo para o mundo, onde conquistou respeito e admiração. E foi por isso que com sua imensa generosidade, quis, ainda inspirada no mesmo evangelho que tomou como orientação, visitar e levar a esperança aos povos pobres de outros paises. E foi lá, no meio de gente humilde e carente, que teve a vida terrena sacada no terrível terremoto que abalou e destruiu o Haiti.
O anjo Zilda nos deixou apenas fisicamente. É de se lembrar o que pregou o irmão dela, Dom. Paulo Evaristo Arns, a respeito do encantamento dela: “Não é hora de perder a esperança”. É preciso guardar (e ficar) dela uma imagem, em luz, em exemplo de entrega ao irmão, de desmedido amor para que seja possível continuar iluminando as trevas que vêm tomando conta do nosso país com os desditosos e mafiosos políticos que falam muito em direitos humanos, mas delapidam muito mais o pobre e sofrido povo brasileiro e com os gananciosos que destróiam nossa natureza para saciar sua desmensurada ganância..
Zilda Arns estará sempre no meio do povo brasileiro, assim como Cristo permanece no meio de nós, ainda que muitas vezes esquecido naquilo que veio ensinar. Sim, “não é hora de perder a esperança”.

.

.

.

.

.

CHORA O RIO SÃO FRANCISCO, CHORAM AS FLORES DO CERRADO

A manhã do dia 11 de dezembro ficou triste nas barrancas do São Francisco, uma nuvem de tristeza cobriu o cerrado ofuscando o brilho e a beleza da ciganinha – morreu Saul Alves Martins. Na verdade, é melhor dizer que ele se ausentara fisicamente do nosso meio, mas jamais poderemos dizer que ele morreu, pois seu legado é de força vivificante. Ele cantou em prosa e versos, e com a alma, o Rio São Francisco – que barranqueiro apaixonado foi ele, filho de Januária, filho do Vale todo. Reuniu, em vida, múltiplas facetas do povo barranqueiro e dos gerais, retratados em seus maravilhosos livros – poesias, contos, mitos e lendas, artesanato, de tudo que fosse coisa nossa. Foi historiador, escrevendo a saga de Antônio Dó, o que levou muito tempo de pesquisas e de mergulhos em nosso sertão e, assim, registrando uma fase de nossa própria história.
Fundador da Comissão Mineira de Folclore, da qual foi presidente por muitos anos, ele consolidou aquela instituição com seu trabalho, seu idealismo e vasta cultura, doando para ela o seu rico acervo cultural.
Pertenceu aos quadros da Polícia Militar de Minas Gerais, tendo chegado ao posto de Coronel. E foi, ao mesmo tempo educador, sendo presidente das Escolas Caio Martins, onde deixou um imenso ciclo de amizade, ele e sua esposa dona Julinda, pela maneira cordial, amiga e respeitosa com que se relacionava com servidores e alunos. Também para as Escolas Caio Martins ele deixou um grande legado: é o autor da letra do hino que os alunos cantam, quase todos os dias com tanto garbo e orgulho – “Se da Pátria os anseios ouvis, se quereis uma infância feliz...” E como ele fez tantas crianças felizes. As suas visitas às unidades das escolas se transformavam em festa, porque ele cativava os alunos nas reuniões de grêmio contando histórias do nosso sertão, retratando a alma do nosso povo. Nas escolas ele era chamado carinhosamente de coronel Saul, muito mais para um pai que para um militar.
Pois, Saul nos ensinou tanta coisa e uma delas, que tanto me orgulho, foi o amor pelo folclore. Com ele aprendi e comecei pesquisar e assim cheguei à Comissão Mineira de Folclore. Melhor mesmo é que ganhei o mais gosto ainda pela alma do povo do sertão e pelas belezas que guardam nossos gerais. E isto me levou a escrever sempre, aprofundando em um conhecimento que é universal – das origens do ser na manifestação de sua alma em estado virginal.
Saul nos ensinou mais. Olhando o rio São Francisco, a sua grande paixão – ele ensinava: “o barranqueiro tem a alma no rio”. Tão verdadeira assertiva, pode garantir o pescador, o vazanteiro ou aquele que tão-somente vai à orla apreciar o pôr-do-sol de cada dia. Ali, então, naquele momento mágico em que se aproxima de Deus, o barranqueiro deposita sua alma no rio.
Vai que numa bela tarde de pôr-do-sol ou fresca manhã, nossa alma possa se misturar às águas do rio e, lá, se encontrar com Saul Martins.
Do amigo, João Naves
.

.

.

.

.

.

.