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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

VISITA A UM PARAÍSO VIRGINAL



O Comitê da Bacia Hidrográfica SF9 – Afluentes Mineiros do Médio São Francisco reuniu-se, no dia 31 de agosto no município de Bonito de Minas. Os conselheiros tiveram uma calorosa acolhida no plenário da Câmara Municipal, quando foram saudados pelo prefeito municipal José Raimundo Viana na abertura dos trabalhos e pela vice-prefeita Vânia Carneiro. O plenário estava repleto com o público formado por presidentes de entidades locais e estudantes, somando com os conselheiros na discussão de importantes temas ligados aos recursos hídricos e à revitalização do Rio São Francisco.
No segundo momento, foi oferecido um especial almoço aos conselheiros, tendo como prato principal um dourado assado com arroz de barriga, da arte culinária de Miguel - iguaria de primeira, mesmo sabendo que a especialidade local, na culinária, é a paçoca de carne seca. O almoço foi servido na secretaria municipal de Educação, estando à frente o próprio secretário municipal de Educação.
Terceiro momento: visita ao balneário do Catulé. Se todos estavam felizes com a recepção que fora feita ao CBHSF9, ali, às margens do Catulé, os conselheiros se sentiram muito melhor à beira de um paraíso. O rio vem do alto, nascido em diversas locas aos pés de buritis, descendo dali abrindo caminho entre pedras, deslizando-se sobre lajes acinzentadas, rolando seixos brilhantes, fazendo dançar algas verdes e vermelhas, folhagens de samambaias e beijando, aqui e acolá, troncos de buritis. É uma pena que às imagens não foi possível juntar a cantiga do rio. A mais pura canção da natureza. Vejam as fotos solfejando a canção Chuá, chuá – vai dar para sentir mais o encanto.
O Catulé se encontra em estado virginal, com fartas águas numa estação do ano (agosto/setembro) em que tantas outras fontes da região estão secas e que, cortando o cerrado não têm os olhos a graça do verde. Contemple-se ali uma visão do éden em um mundo de sequidão.
Bonito de Minas nos dá um bonito exemplo de como conservar, preservar e respeitar a natureza. O que se faz no mundo, destruindo a Terra, muitas vezes por ganância, tem ali um modelo de uma vida mais saudável e de boa relação entre o homem e a natureza. É possível sim alcançar o desenvolvimento sem destruir o meio ambiente.
Bonito de Minas é bonito de se ver... e ficar!


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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DIA INTERNACIONAL DO FOLCLORE


A primeira lembrança é a do inglês William John Thons que no dia 22 de agosto de 1846 fez o primeiro enunciado do vocábulo folclore. Depois, navegando pelas mansas águas do Rio São Francisco, vamos içar a alma do mestre Saul Martins que, por certo, ali foi repousar depois de seu encantamento. Era ele o mestre do nosso folclore, o que mostrou as belezas e grandezas da nossa cultura revelando a alma de nossa gente com tanto zelo. Ele, que ao lado do mestre Aires da Mata Machado e outros fundaram a Comissão Mineira de Folclore, instalada em 19 de fevereiro de 1948. Deixando as barrancas do rio, avançamos pelo córrego Angical até nos desviar para as barrancas secas da grota do Surucucu, encontrando uma humilde casinha fincada no tauá, numa suave lombada sob a sombra de solitário pé de xixá entrelaçado à copa de um umbuzeiro. Ali encontramos a luminosidade da figura do mestre Minervino acertando as curvas de uma viola ou mimo de uma rabeca, ajustando as folhas finas de imburanas e, depois do ofício completo, os solos de doces cantigas de ninar sertão.
Subindo o rio, pela estrada amarela, poeirenta, ou pelo alto das copas de aroeiras, tamboris e ipês, ganhamos a cidade fazendo pouso nas ruas onde ressoam caixas e violas e todos instrumentos do terno de folia de Adão Barbeiro. Eia! Tem folião saudando lapinha. Tem folião saudando São Pedro e Adão Barbeiro puxando o grupo com serenidade, com seu velho escudeiro, de olhar baixo e alma nas baquetas, o caixeiro João Pomba Triste. A viola repica acordes e neles repassa Adão Barbeiro que artista não morre. Encanta-se e fica por aí assistindo o mundo passar.
Ganhando o alto esbarramos na praça da Igreja Nossa Senhora Aparecida. Na esquina, com a rua São Romão, uma casa sossegada sem aparência de ser diferente das outras, mas no fundo, há de se lembrar do grande mestre Nego de Venança briquitando (como dizia o velho baiano Zé Domingos, do Campo de Sementes e Caio Martins) com instrumentos de vida nova – violas e rabecas, ou ressuscitando aqueles que ali chegavam, em sua oficina, aos cacarecos.
Vamos para as bandas do Sobradinho. Uma ruazinha nova, perto da capela. Uma pequena oficina montada para um mestre – Joaquim Goiabeira. Ali buscavam foliões de todos quadrantes as caixas de tamanhos variadas para empreenderem suas jornadas com os ternos de folias. Joaquim fabricava cada caixa com arte como se esculpisse uma obra de arte – e o era.
Pois é, neste Dia 22, Dia Internacional do Folclore, nossa comunidade rende homenagens aos nossos grandes mestres. Homens que com toda simplicidade (nisto se inclui o mestre Saul que apesar do vasto saber, era simples no contar, no transmitir, no sentir) enriqueceram a nossa cultura, deram uma dimensão especial ao nosso Folclore. Homens que traduziram, com sua arte, a nossa alma.




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quarta-feira, 28 de julho de 2010

FLORES DE JULHO


O mês de agosto é prenúncio da Primavera. A natureza ainda está em dormência, em estágio vegetativo. Grande parte das árvores está sem as folhas e aquelas que as suportam tem-nas amarronzadas, retorcidas, ressequidas, pedindo água. Flores são raras, tão raras. Eis que, sem dar aviso, porque está em seu ciclo, algumas espécies vão se adiantando nas vestimentas primaveris – querem ser as adiantadas da estação e nisto acabam se dando bem porque são as únicas distinguidas, mais notadas, no contraste vivaz com o triste cinzento. Tenho visto, por andanças pelo cerrado, em todas as épocas do ano, como vão acontecendo as mudanças na natureza e sempre me surpreendendo. Aqui, na orla do querido São Francisco, acompanho atento – ainda que em caminhar distraído nas manhãs de julho – sensíveis mudanças. Sempre estou de olho no tamboril, no ano todo. Agora, ainda no final de julho, está desfolhado sustentando apenas as sementes que esperam o momento para cair. Nada nadinha de verde senão ramos de teimosas ervas de passarinho. Faço fotos e mais fotos delas para que depois outros possam ver, admirar e acreditar no milagre da natureza no seu trabalho renovador milenar. E nas caminhadas vou me surpreendendo com as adiantadas. Acredito que algumas plantas são mais sensíveis às umidades distantes que possam passar pelo sub-solo, ainda que nada a sinalize no céu, limpo de nuvens. Algum veio de água deve furar bloqueios de pedras, barro ou tauá e vai procurando caminhos e, com isso saciando raízes mais profundas. Então, é o que se vê, o pajeú, árvore de beira de rio, sempre ali pregada nas barrancas, testemunha de grandes enchentes e terríveis secas, se vestindo de florada. Primeiro buquês verdes que logo vão se matizando passando para o vermelho. Verde-e-vermelho, flores às pencas cobrindo toda a fronde das árvores. É um tapete aéreo que vai refletir seu colorido nas águas do rio, nesta época tão cristalinas. Um pouco afastadas das barrancas, mas ali na orla, a caraibinha se arrebenta em flores brancas, mimosas e docemente perfumadas. O caminheiro ao dela se aproximar, ainda que sem assuntar, sente o arômata, passa e leva aquela lufada suave, doce, por um bom trecho de estrada. Soltas aqui e acolá, mais próximas do gradil que separa a barranca da avenida, sobem moitas de algodão manso. É uma plantinha tão comum na catanduva, nas matas secas e muito mais em terrenos de pedreiras e de solos áridos, de pouca água, que poucos dão ligança para ela, que não tem serventia. A única que sei é a de servir de brinquedo para as crianças explodindo, com os dedos, seus botões brancos, em formas de esferas ocas. E o que têm elas, então, para merecer uma atenção, agora? As flores. Tão delicadas e desenhadas flores, formam pequenos buquês e quando se abrem aprecia-se a engenhosidade de seus traços coloridos. E ainda não chegamos ao mês de agosto que é prenúncio da primavera. Aprecio tanto esta época de secura, de tristeza nas plantas, de vestimenta plúmbea, um mundo gris de raridade verdes. Árvores e mais árvores com galhos secos estendidos ao céu, sem uma folha sequer como se pedisse água, água, meu Pai. É preciso tanta tristeza assim para sentir o rebentar da vida que nos oferece, com toda pujança, a natureza, quando chegam as chuvas de broto de agosto e, depois a Primavera. É preciso o cinza triste para festejar o verde lustroso, e o colorido de tantas e tantas flores que se abrem por toda parte. Lá embaixo, cumprindo sua sina, vai o São Francisco deslizando mansamente. Agora mais mansamente do que nunca, tão carente de água, sufocado por tanta areia, mas sereno, bonito, tão bonito. Alheio à maldade do homem, o depredador voraz de cerrado, entumpidor de veredas e matador de nascentes. Com tanto descaso e agressão, a natureza resiste – ainda resiste – e o São Francisco cumpre sua sina e, os nossos olhos, a cada dia fascina.
Sim, tenho tanta inveja do tamboril porque não posso imitá-lo. De maio a julho ele se despede das folhas, se mostra seco, enrugado, cascas eriçadas, cinzentas, um quase morto. Vem chegando a primavera e ele vai soltando pequenas, pequeninas folhas verdes – uma duas, outras e tantas outras. No começo elas se mostram quase transparentes, translúcidas de quase poder vará-las com o olhar. Depois se tornam mais aglomeradas, mais densas e cobrem, como um manto verde, brilhante e viçoso, a fronde da árvore. É vida renascida, revigorada, pujante. Eu, a cada inverno, vou perdendo o vigor e viço físico que não se revigoram com a chegada da Primavera... vou me acinzentando, descendo o rio abaixo em meu inverno sem volta.

sábado, 17 de julho de 2010

ADEUS, MEU RIO SÃO FRANCISCO








Causa arrepios a visão de um quadro estarrecedor: bandos de mergulhões e quem-quens catando moluscos no meio do rio com a água mal cobrindo seus pequenos pés. Já não bastavam as imensas coroas e bancos salientes de areia entupindo os canais do rio para tanto nos assustar e criar uma perspectiva tenebrosa quanto ao destino do nosso consagrado rio. Agora, bandos de aves passeiam em suas águas sem molhar as penas. Essa visão nunca, jamais ter diante dos meus olhos acostumados ao namoro diário com o meu rio.
Ano a ano a situação do meu rio fica mais crítica e as perspectivas são as piores, afastando-se a esperança de um reversão a curto prazo se os cerrados ainda continuam sendo devastados, e há a ameaça de se liberar mais e mais desmatamento – do cerrado e da mata seca. Ganha-se por um lado, mas perde-se muito do outro. Na elaboração de leis modificativas de situações já estabelecidas numa região seria aconselhável consultas locais, ouvir as pessoas, trocar de idéias e vivenciar os problemas vividos pelos homens da terra – o que sabe as veredas e as nascentes que vão alimentar o grande rio. No caso das questões hídricas tudo é muito mais sério. Vê-se, de um lado, a situação dos produtores, a necessidade de ampliar as áreas de desmatamento para plantio de lavouras e pastos. No papel é fácil. A realidade é outra. No cerrado são-franciscano, por exemplo, o que se vê é outra situação. Não tem lavoura, nem pastos. Vai restando o deserto quando se tira a cobertura vegetal para alimentar as bocas de fornos das usinas. Ganhou-se um bom dinheiro por uns tempos. E depois? O que sobrou recompensa? Se alguém tem alguma ilusão a respeito, deveria visitar as áreas – imensas áreas devastadas – no distrito de Santa Izabel de Minas. Dezenas de veredas morrendo, muitas totalmente extintas. Vá percorrer o Vieira e o Acari e depois dê uma chegada no areal em que vai se transformando o Rio Pardo. Ali está o retrato de uma situação – a devastação do cerrado.
O Rio São Francisco é o retrato mais próximo e visível da situação. Longe daqui técnicos do governo ainda imaginam coisas espetaculares – transposição e hidrovia. No caso da primeira a cada dia vai ficando mais complicado, pois a água está diminuindo, diminuindo. No caso do segundo é possível uma transposição - de hidrovia para rodovia. É só esperar.
Vou lembrar aqui o final de uma crônica que faz parte do meu livro (neste Blog) “Do Cerrado às Barrancas do Rio São Francisco, com o título o rio São Francisco seca:
“Muito mais triste e pior será, se nada for feito para salvar o cerrado e sua gente. É factível de se imaginar, melancolicamente, se isso acontecer – ou deixar de acontecer o socorro – que alguém diante da calha do rio, de um topo qualquer, possa dizer com saudade a um jovem: - meu filho, este imenso trilho de areia que suas vistas hoje contemplam, outrora foi um majestoso rio, o mais importante do Brasil, o então falado rio da unidade nacional.”


Registro fotográfico da situação do Rio São Francisco no mês de julho de 2010, quando da reportagem feita pela Inter-TV.

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sábado, 29 de maio de 2010

PARA FICAR NA HISTÓRIA

Dois dias de intensa atividade cultural para ficar na história de São Francisco, proporcionaram a Associação Cultural de Difusão Voz do Morro e a Cultuarte com o Encontro de Ternos de Folia e Fórum Intermunicipal de Cultura Tradicional. As instalações do Centro Cultural Católico, a Praça Centenário, União Operária e ruas da cidade ganharam colorido e movimentação com o ir e vir de dezenas de foliões, com toalhas brancas no pescoço, levando seus instrumentos. Espaços ocupados por jovens em diversas oficinas – teatro, percussão, entre outras.
Meio à azáfama cultural e inebriante entusiasmo, ilustres visitantes que tomaram parte do evento como palestrantes ou assistentes. Destaco com satisfação a presença do folclorista e escritor Domingos Diniz, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, e Affonso M. Furtado Silva, conselheiro do Consenso Estadual de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Federação Fluminense de Terno de Folias. Diniz, enfocou, em sua palestra, aspectos interessantes da cultura popular e apresentou aos são-franciscanos o belíssimo livro que escreveu, com Ivan Passos Bandeira da Mota e Mariângela Diniz – “Rio São Francisco: Vapores & Vapozeiros”. Afonso homenageou o folião guia mais antigo, entre os presentes – Tino – com a comenda Estrela Guia ( que vem da Catedral da Colônia, Alemanha), e faixa de folião, conferida pela Federação. Lembro que anos atrás esta homenagem foi prestada ao inesquecível folião Adão Barbeiro.
De beleza pura, com toda a expressão de singularidade da terra, foram as apresentações de diversos ternos de folias, em duas noites. Algumas com as tradicionais saudações dos reis à lapinha; outras com santo de devoção e teve até saudação especial à Nossa Senhora do Parto. Depois de cada saudação, o lundu ou chula e quatro. E teve a apresentação de grupos de jovens e mulheres, com a catira e dança de rua e grupos das oficinas promovidas no evento: percussão e teatro.
Para encenar as apresentações, muito especial, um mimo para os são-franciscanos e visitantes, uma verdadeira obra de arte e de alegria. Em um caso a mágica performance de Ana Patrícia, uma explosão de sons na viola de doce suavidade na voz, uma belíssima combinação. Por fim um passeio com o Tambolelê que, hoje, é uma expressão internacional – foi um presente especial para São Francisco assistir o show do grupo que há pouco se exibia no outro lado do mundo.
Dias maravilhosos que nos proporcionaram Tone Raposo e Ronaldo, tanto fazendo pela cultura são-franciscana e região.
Abaixo um pequeno painel de fotos do evento.
























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segunda-feira, 26 de abril de 2010

UMA GRATA VISITA

Recebi um reconfortante e-mail de um amigo que visitou este blog: Romeu Rodrigues.
Fiquei muito feliz por este reencontro, através das palavras, ainda mais por ele me levar a um passeio saudoso à nossa querida Caio Martins de Esmeraldas.
Obrigado, Romeu, por suas generosas palavras e estímulo., que reproduzo em meu blog como registro de uma grande amizade, o que faz também ao ser humano.

“Querido Professor João Naves,
Estava a navegar na rede, guiado pela saudade das coisas de minha raiz, quando me deparei com o seu blog e me encantei com tantas informações e boas lembranças.
O vigor e a profundidade do trabalho me encantou pela riqueza de detalhes das histórias do nosso povo.
Quanto ao brilhantismo intelectual do Professor/Autor, muito menos, pois graças a Deus tive a honra e o privilégio de desfrutar dos ensinamentos, da dedicação abnegada aos alunos da FUCAM, enfim de ter me torneado o caráter com as generosas mãos do Querido Mestre.
Contido no regozijo de minha alma, um forte abraço do seu eterno aprendiz.”

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EU E BRASÍLIA


Março de 2010, em companhia de minha esposa Vilma e do meu filho Eduardo e esposa, Nádia, ganhei o sertão urucuiano rumo a Brasília-DF. Voltaria, enfim, à Capital e a motivação foi a formatura de minha neta Larissa Naves no curso de odontologia da UnB, cortando o cerrado urucuiano e parte do planalto goiano até chegar à capital debaixo de muita chuva. Voltei ao passado, com imensas saudades...
Há trinta e um anos, com o mesmo tempo de chuva, estive em Brasília, e não mais. Acompanhei, com José Ribeiro – motorista da Fucam – o Cel. Almeida em uma viagem que teria como roteiro Belo Horizonte – fazenda Três Marias, no município de Bonfinópolis, Núcleo do Urucuia, São Francisco, Januária e Juvenília – Núcleo do Carinhanha. Saímos do roteiro, no primeiro dia de viagem, indo parar em Brasília, pois chovia e chovia demais, tornando intransitáveis as estradas de acesso a Bonfinópolis via João Pinheiro e, mais adiante, via Paracatu-Unaí. De impedimento a impedimento decidiu o Cel. Almeida que iríamos para Brasília. Estávamos na semana do carnaval de 1979, ano da grande enchente do vale do São Francisco.
Chegamos em Brasília debaixo de muita chuva. Céu turvo e fazia muito frio e nós sem agasalhos, pois deixamos Belo Horizonte com tempo seco. A noite caía. O Cel. anunciou que iríamos ao aeroporto aguardar a chegada da esposa dele que viria de Belo Horizonte. Gostei da idéia, pois assim poderia apreciar a chegada e saída de aviões, os jatos que tanto me fascinam. Eu guardava na lembrança a bela imagem dos Constellation, Douglas DC-7 – que levou a delegação brasileira à Europa da consagradora viagem de 1958 quando foi campeã do mundo -, e o pequeno Piper, Bonanzas. Seria a oportunidade de conhecer a nova geração, os jatos que não vira de perto. O que seria um deleite se transformou, no entanto, num verdadeiro suplício. Um vento frio, cortante, soprava na sacada do aeroporto, de onde tínhamos visão panorâmica da pista e pátio. Tremíamos como vara verde. Os lábios do Zé Ribeiro estavam roxos e pensei que igualmente deveriam estar os meus. Não adiantava o recurso de apertar os braços sobre o peito, o frio penetrava do mesmo jeito. Fiquei imensamente satisfeito quando o Cel. Almeida nos chamou dizendo que sua esposa não viria, ficara retida no aeroporto de Belo Horizonte, sem teto, também por causa da chuva que lá chegara depois de nossa partida. Fomos então para o apartamento dele. Foi a primeira vez que vi os famosos blocos residenciais de Brasília indo ao apartamento do coronel. Não deu para apreciar muito coisa, pois era noite e chovia muito. O apartamento estava fechado há algum tempo, estava com os sofás cobertos de panos que foram retirados com a nossa chegada. O coronel anunciou que sairia para cuidar de alguma coisa para comermos. O frio era ainda muito intenso o que me levou a saber dele se não tinha no apartamento uma bebida quente. Tinha, um litro de conhaque que bebemos, todo, sem cerimônia. Mais tarde o coronel chegou com uma pizza – o nosso jantar.
No outro dia, pela manhã, ainda com muita chuva, o coronel nos chamou para um passeio e lá fomos, levados pela filha dele, Maria Coeli, em um fusca. Saímos por uma avenida larga, comprida, deixando, de lado, os conjuntos de blocos. Bem longe o fusca deixou a rodovia entrando por uma pequena estrada que deu em um enorme portão. Dois homens com barbas cerradas, vestidos de batas negras, com capuz em forma piramidal e com medalhões dourados, muito grande, presos por grossas correntes, no pescoço. Deram boas vindas aos visitantes e abriram o portão, depois da identificação do coronel. De lá fomos a uma casa, quase à entrada. Ao descermos do fusca deparamos com várias pessoas chegando ao local, na maioria vestida com as batas negras, capuz e medalhão no peito. O céu estava coberto de nuvens negras, caía uma chuva fina, gelada, tudo criando um ambiente quase lúgubre. Zé Ribeiro estancou-se na porta do fusca, com os olhos arregalados, não conseguindo dar um passo à frente. Disse que não sairia do carro. Lá fomos nós. Fomos recebidos por uma senhora de cabelos negros, luzidios, semblante serenos, aparentando ter mais de 40 anos. O coronel anunciou que era a Tia Neiva que fiquei sabendo, logo a seguir, ser a líder espiritual daquele local que se chamava Vale do Amanhecer, que gozava de muito prestígio no meio político da Capital Federal. Apresentações feitas o coronel foi, com Tia Neiva, para uma sala reservada enquanto eu e Maria Coeli fomos visitar as instalações do complexo guiados pelo esposo da Tia Neiva. A primeira instalação que visitamos foi a livraria onde se via estampadas várias obras de cunho espírita, mais delas falando sobre o trabalho desenvolvido no Vale e, em especial por sua líder. Entre as publicações uma chamou-me a atenção. Falava sobre um planeta que se aproximava da terra e que causaria graves mudanças no clima, aumentando o nível das águas do mar, causando imensas inundações de terras litorâneas, avançando pelo interior. O local onde fora instalado o Vale do Amanhecer seria dos poucos preservados. O fato me causou forte impressão pelo tanto que chovia. Mais tarde, porém, teria motivos maiores para dobrar a preocupação. Continuamos o giro. O Vale tinha várias instalações, muitas casas para abrigar pessoas carentes, pontos de pouso para visitantes de cidades distantes e muitos galpões. O local é fantástico. Místico. Tem uma aura especial que pode até provocar uma sensação de paz... e medo diante do desconhecido. Chegamos a um plano superior onde foi construído um lago, tendo ao fundo, um palco muito grande e, nele, um altar de pedra forrado com tolha branca. Dos lados do lago, lápides de mármore, numa delas vimos um homem deitado de bruços com a testa apoiada nos braços, inerte, em profundo transe contemplativo. Quis saber o significado daquilo e o esposo de Tia Neiva disse que aquele lago era para atrair forças positivas e luzes do universo. Que eram realizadas cerimônias especiais para os contatos e fortalecimento espiritual. Mais abaixo foram erguidas algumas pirâmides. Fomos a uma delas. Numa parede frontal, ao lado da porta de entrada, um nicho e, dentro dele, imóvel, um dos homens de bata negra. No interior da pirâmide havia uma grande bacia de pedra, como uma pia batismal, que estava cheia de sal e, sobre ela, um pêndulo que vinha do alto da pirâmide tendo na ponta inferior um metal em forma de triângulo apontando para o sal. O marido de tia Neiva sugeriu que experimentássemos do sal que tinha força cósmica. E, logo a seguir perguntou se queríamos um passe o que seria feito por um dos guias ali presentes. Não aceitamos nenhuma das duas opções. Passamos a um plano inferior adentrando em um enorme galpão com uma largura próxima de 20 metros e o comprimento superior a 50 m. O interior era dividido em três partes – a nave central, mais larga, com bancos na parte baixa; cadeiras comuns, em menor quantidade; no maior e na parte mais elevada, cadeiras mais confortáveis e em número mais reduzido. Era a distribuição de acordo com a graduação dos obreiros das funções ali desenvolvidas. Nas laterais, separadas por uma passarela de 2m de largura, via-se vários compartimentos com a frente vedada por cortinas e, no interior delas, guias para receber as pessoas para os passes espirituais. No fundo,tomando toda a extensão da parede, um reservado fechado com grossa cortina. Saiam de lá muitos gritos e profundos gemidos. O marido de Tia Neiva informou tratar-se de espíritos rebeldes que estavam sendo expulsos. Tétrico.
Terminada a visita encontramos o Cel. Almeida na sala da casa de recepção conversando com Tia Neiva. Despedidas feitas, voltamos ao fusca onde encontramos Zé Ribeiro deitado no banco de trás, com a cara enterrada no banco. Não me assustei como Zé Ribeiro, mas sai dali impressionado, admirando aquele trabalho espiritual e social, carregado de misticismo, embora o clima chuvoso nos ter levado a um estado de tristeza o que pode ter prejudicado uma melhor visão de tudo o que nos foi mostrado.
À noite visitamos o filho do coronel, Fernando. Conheci outro bloco residencial. Voltamos ao apartamento do coronel. Ainda chovia, e muito. Aí ele nos assustou dizendo: “Vamos viajar amanhã. Passando pela estrada de Cabeceira de Goiás é um pulo até chegar à fazenda Três Maria. Coisa de 3 horas. Eu e o Zé nos olhamos apreensivos, pois ainda chovia muito.
Na manhã seguinte, como anunciara o coronel, viajamos sem levar um pedaço de pão como lanche porque três horas depois estaríamos na fazenda Três Marias.
Passei dois dias e duas noites em Brasília. O que vi foi uma imensa avenida, o Vale do Amanhecer, o aeroporto e dois apartamentos. De lembrança levei um livro do Vale do Amanhecer, aquele do planeta que se aproximava da Terra e iria exercer uma forte influência sobre ela - óbvio que depois de quatro dias de chuva ininterrupta e ainda de ter de penar mais dois dias seguintes, presos em estradas enlameadas debaixo de muita chuva sem poder chegar à fazenda Três Marias, fechando o roteiro da vigem em Buritizeiro, tudo debaixo de chuva. Em Buritizeiro, com o coronel querendo prosseguir na viagem para o Norte, sugeri que telefonasse para a diretora da Escola de Januária, Elzita, perguntando sobre as condições da estrada. Em reposta ela fulminou: “Coronel, vai para casa, o aterro (estrada de Januária) está debaixo das águas do rio São Francisco. Começava a terrível enchente de 79. Então como poderia ler o fatídico livro? Nunca o abri.

Trinta e um anos passados da minha segunda viagem a Brasília - a primeira foi em minha lua de mel, em 61, quando a capital era uma criança. Se das vezes anteriores pouco vi da cidade – a primeira foi quase de passagem e na segunda debaixo de três dias de intensa chuva – desta vez pude conhecê-la um pouco mais. Nem tanto quanto queria, pois não dei sorte nas visitas à Torre de TV (fechada com avaria); Catedral (fechada para reforma), memorial JK (proibido fotografar) e Praça dos Três Poderes em reforma para os festejos do aniversário. O que vi, no entanto foi o suficiente para ficar orgulhoso com o meu País, pela grandiosidade do povo brasileiro – poucos países no mundo têm uma capital como a nossa. A engenharia urbana, os jardins, os parques, os monumentos, a amplidão, a paz.

Agora de novo em Brasília – no DC como a tratam os locais dom carinho. Ainda que persistisse a chuva, procurei, nos dias que passei por lá, viver o tanto quanto possível a memória do grande mineiro, responsável pela criação da cidade, o inesquecível presidente Juscelino, o homem da fé, da concórdia, dos sonhos. Lá à entrada do memorial, fitando a imensa estátua dele plantada em uma torre, olhando o infinito, ouvi sua voz vaticinando, com sua “fé inquebrantável nos destinos do Brasil”: “Tudo transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã”. E aconteceu.
Do otimismo ilimitado de Juscelino, como os infinitos daquele planalto, levei o pensamento a outros grandes artífices daquela obra do século: Lúcio Costa, o arquiteto que inovou o urbanismo com um plano inusitado, traçando a cidade na forma de uma cruz, para tantos, lembrando um imenso avião; Oscar Niemeyer com suas linhas modernas, surpreendendo o mundo da arquitetura, prédios de concreto que se projetam como luz resplandecente sob o céu azul profundo, sem limites, como um sonho, uma fantasia; Burle Max com seus jardins, os bosques, tudo tornando a cidade mais aprazível; Israel Pinheiro o grande administrador da obra fantástica e o engenheiro Bernardo Sayão. São nomes que, diante dos quais, devem se inclinar os brasileiros com orgulho e reconhecimento.
Voltei mais no tempo, encontrando o cientista Luis Cruls que chefiou a primeira expedição para demarcar no bravio planalto central o sítio onde deveria se erguida a capital do país, sonho de muitos anos antes de Dom Bosco (dizem os historiadores que Israel Pinheiro tinha uma imagem de Dom Bosco em seu escritório e que, com ele, conversava e cobrava quando as coisas não andavam bem nas obras).
Brasília, parabéns, cidade moça. Parabéns pelos cinquenta anos, por seu esplendor e pelo tanto que significa para nós brasileiros. E nossa singela homenagem ao presidente Juscelino e aos seus imediatos companheiros na implantação da capital, entre eles, sem dúvida, os humildes candangos que se fizeram, na verdade, uns gigantes.
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