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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Adeus, Pajeú


O tempo chega para todos nós viventes. Tudo tem o seu tempo, ou há tempo para tudo, como ensinou São Paulo. Pois é, companheiro Pajeú, velho guardião do nosso mais do que amado Rio São Francisco. Ali, fincado no penedo, onde começou a história de nossa terra, você esteve em vigília por tantos anos. Ficou ali plantado, bem próximo das lisas e negras pedras onde chegava, em noites de lua cheia, e tomava assento, a bela Iara de cabelos verdes para cantar e encantar os guerreiros xacriabás, primeiros habitantes desta terra. Quantas vezes estive ao seu lado, admirando a sua permanência com a copa virada para as águas mansas, quase sempre, do nosso rio, pondo assunto, bem sobre a caverna do surubim de cabelo, quem sabe seu companheiro de história. Noutras eras você sentiu as águas bravas e barrentas do nosso rio banhando suas raízes firmemente encravadas nas rochas. Você e o rio tinham uma combinação, pois ele deixou você ali plantado anos após anos. Ali no penedo onde os índios botavam vigia para descobrir os cardumes de graúdos peixes, nos primórdios, quando fartura havia sem presença de tantos pescadores. Quantas vezes fiquei ali por perto, observando e admirando como você se agarrava às pedras, buscando terra bem no fundo das frestas para se manter firme e vivo, atravessando os anos. Fazendo sol ou chuva e você sempre ali soltando, uma vez por ano, as belas flores vermelhas. Vi meninos de escolas da cidade, em azáfama atividade, plantando mangueiras do lado de cima, onde terra farta havia. A alegria durava meio dia. Depois, os meninos voltavam às escolas e lá ficavam as mangueiras em terra fértil. Nenhuma delas resistiu e você, plantado no rochedo permanecia verde, vigiando o rio.
Um certo dia, eis que volto ao seu pouso para mais fotografias do meu rio fazer, sorvendo suas cores, sua placidez, e o mistério que ele tem em me cativar, como a todos barranqueiros. E o que vejo, meu Deus: você sem suas verdes folhas. O que foi isto, caro Pajeú? Então, assim de repente você resolve deixar o seu rio? Resolve nos deixar? Como vai ficar aquela paisagem sem a sua fragilidade\fortaleza? Sim, de aparência pequena, miúda, se lembrados os altaneiros angicos que no século passado ou mais que passado, forravam aquele sítio, daí ser a vila primeira Pedras dos Angicos. E bem que poderia ser, depois, Pedras dos Pajeús. Vi, com tristeza seus galhos nus, estendidos ao céu. Agradecia ao Pai por sua existência companheira do rio? Sem as folhas que os forravam não podia mais namorar as águas do rio, refletir nela o seu ficar para que elas levassem para o mar as suas lembranças. Só os galhos secos. Só. Daqui mais tempo nem mesmo o tronco restará.
Tenho um consolo, amigo Pajeú – bem ao lado do seu tronco, coisinha de nada desponta em folhas querendo subir. Seria seu filhote? Tomara que seja, pois assim, parte sua continuará na vigília do nosso rio.
Assim, vamos continuar, em pouco tempo, com o nosso Pajeú e o rio.

UM PASSEIO PELA ORLA DO SÃO FRANCISCO

A cidade de São Francisco foi abençoada por Deus que lhe deu dois belíssimos presentes: o Rio São Francisco e o majestoso pôr-do-sol.
O rio tem uma passagem especial pela cidade, de pontal a pontal, numa longa distância, descrevendo um suave “S”, abraçando o cais da cidade, lambendo as lisas pedras que guardaram, por séculos, portentosos angicos, que deram o nome primeiro à civilização ali plantada. Depois, muito depois, veio o atual nome – São Francisco, naturalmente vindo do rio, mas com resquícios da bondade e amor do santo que deu nome ao rio. Rio e cidade, coisa de muito amor ficado. Muitos registros foram feitos para contar tanta beleza. O mais famoso e carinhoso foi do grande Guimarães Rosa, no seu mais famoso romance: Grande Sertão: Veredas. Em uma página ele descreve com jeito carinhoso: “formosa cidade de São Francisco, a que o rio olha com mais amor”. Irra!

O pôr-do-sol. As palavras são poucas para descrever a beleza tanta da obra do Criador, renovada nas águas do rio, ali defronte da cidade, a cada tarde. As fotografias falam muito mais. Deixo para os olhos...




















A LUA CHEIA DE PRATA

O pôr-do-sol sempre tem sido nosso encanto barranqueiro. Coisa do entardecer. Assim, quando se punha o sol, vinha, do outro lado a lua, se fosse cheia. Aí ela passa imperando a noite, embalando sonhos de enamorados e arrancando suspiros de saudade dos que já a viveram em romances idos. Passa e passa, mas na madrugada, quase chegar do sol, quando dormir ela vai, também dorme a cidade. Assim, ela fica sem espectador ou admirador na hora amena e fresca do nascer do dia, quando risca caminho de prata no leito dorminhoco do rio.
Eu sempre quis registrar este momento, uma coisa ou outra atrapalhava. Chuva, nuvens, cervejas... Na última passagem de cheia, eu a peguei. Por uns instantes, na fria madrugada e no arrebol, tive companheiros naquele momento de elevo – visitantes de Montes Claros.
Não falo mais. Falam as fotos.


































sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL



O Natal é tido como a maior festa da cristandade. Deveria ser de toda a humanidade, sem distinção de credos, pela mensagem que encerra. Àqueles tidos como agnósticos ou de outras religiões, nem precisariam questionar se se tomar como fundamento o que significou Jesus para todos os homens, a importância de sua mensagem. Nem preciso é se prender ao fato de ser Ele, para os cristãos, o verdadeiro filho de Deus. Preciso é saber e lembrar sempre que Ele só quis ensinar uma coisa: o amor – “amai-vos uns aos outros”.
Quem pode ir contra esta mensagem? Certamente aqueles que não têm no Natal outra preocupação (se tiver) de festejar a data com regalo, por causa da tradição. Aí se incluirão aqueles que não querem a paz no mundo por causa da ambição, da sede de poder e de dinheiro; aqueles que são capazes de massacrar milhares e milhares de homens como se bichos fossem para não criar entraves em seu caminho. Estarão aqueles que fabricam armas, porque isto lhe dá dinheiro. Ora, qual é o único objetivo de uma arma de fogo? Poucos às têm como enfeite, como objeto de coleção. A grande maioria as tem para o fim que foram fabricadas: detonar projéteis, quase sempre no ser humano para atingir diversos motivos. Fabricar armas é permitido. Depois é a luta insana do governo em criar leis para proibir o seu uso; da polícia para apreendê-las nos recônditos dos lares desavisados ou nichos de bandidos. E os fabricantes com armas cada vez mais sofisticadas e poderosas, como ficam?
Impressionante é contemplar o resplendor daquele menino em humilde berço que veio para mudar, transformar totalmente a história da humanidade – e, passados 2010 anos continua provocando mudanças. Tem uma força miraculosa de tocar a sensibilidade, a alma, o coração do homem. Insensíveis existem, mas ainda que pecadores, não estão distante desta luz, pois Aquele menino veio para todos – para os bons e para os maus. Por isso o Natal tem o condão de acender, a cada ano, as esperanças de tempos melhores, de paz, de amor, de concórdia, no destino da humanidade.
Então, em mais de dois mil anos, continua-se em busca dessa luz, pois ela é a única verdade, o caminho, ainda que o mundo se apresente na contra-marcha do bem e da paz. Ainda que muitos homens mais pensam em si e que, por todos os meios querem se enriquecer causando a dor, a miséria, o sofrimento em muitos lares.
Uma estrela, mais uma vez, nos conduz a um pequeno berço, onde resplandece um menino, o bem da humanidade e, malgrado, tantas adversidades e decepções, com Ele possível é viver o amor, a paz e abrir um sorriso na direção de seus semelhantes, de poder acolhê-lo em seu coração em regozijo, alegria imensa, em rio caudal de muita paz. O Natal sempre será o Natal, a mais bela festa da humanidade!
FELIZ NATAL, amigos.
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Arte: Jonas Silva Ribeiro

terça-feira, 23 de novembro de 2010

MONTALVÂNIA: UM MERGULHO NO PASSADO

Começava o ano de 1952, quando uma cidade nasceu do ideal de um homem que descortinou novos horizontes em uma região lindeira com a Bahia, então sertão inóspito. Ele antecedeu em alguns anos, ao lançar a semente da nova civilização, à grande realização do Presidente Juscelino construindo Brasília. O que fez, no entanto, graças a sua inabalável determinação e as terras de sua fazenda que foram sendo fatiadas em lotes.
Ao plantar a sua cidade, iluminou-a com nomes de filósofos, compositores e escritores – lumes da civilização para inspirar jovens e habitantes da nova cidade para que tomassem gosto pelo saber. O futuro daria a resposta.
Antônio Lopo Montalvão, o homem, antes de tudo um sertanejo afeito à terra, mas com o pensamento vislumbrando o futuro, novos horizontes, querendo ir longe e até mesmo às estrelas. E se fez filósofo, espeólogo e, especialmente com a atenção voltada para a vida extraterrestre - buscando sinais de civilizações antigas ou de outras planetas nas cavernas da região. Assim ele fundou, levantando pedra a pedra, tijolo a tijolo, a cidade que iria ornar o extremo Norte-Mineiro, quase nas barrancas do Rio Carinhanha, divisa com a Bahia. Seria justo que ela ganhasse o seu nome, imortalizando o seu ideal: Montalvânia, a cidade de Montalvão.
A semente que plantou não foi apenas a cidade, mas o sentimento arraigado de amor à terra em cada habitante, revelando um desmedido amor às suas coisas. É o que se vê, hoje, quando conversa com pessoas da cidade que falam com tanto orgulho de suas realizações, de suas belezas naturais, destacando o encantamento pelo Rio Cochá que banha a cidade, daí criando até mesmo o carinhoso termo de tratamento dos locais como cochaninos.
Em um outeiro, dominando a cidade, onde Montalvão construiu uma casa para contemplar o nascer de sua cidade, os homens de hoje construíram um complexo cultural e histórico - nele um mirante encimado pela estátua de Cristo Rei que, às noites, brilha alcançando pontos da cidade. O complexo é ornado por um belíssimo jardim, cuidadosamente mantido. O local recebeu o nome muito significativo: Monte Lupino, outra referência ao fundador. É um marco visível da história, da cultura e do espírito de cidadania do povo de Montalvânia. Pois é, agora que voltei à Montalvânia, com a realização de uma reunião ordinária do CBHSF9, encontrando-a tão moderna, desenvolvida e bonita e, sobretudo, com um povo que se orgulha dela, mergulhei no passado, à minha adolescência. Dezembro de 1953. Montalvânia não era mais do que a fazenda de Montalvão e algumas casas (lembro-me apenas da dele). Eu estudava o curso normal na Escola Caio Martins de Esmeraldas, quando de lá partiu, no mês de setembro de 1953, uma Bandeira (doze jovens caiomartinianos preparados na Escola de Esmeraldas para a missão de desbravar o sertão) para fundar o Núcleo Colonial do Carinhanha, hoje Juvenília. Em dezembro a direção da Escola designou um grupo de jovens estudantes (meninos três deles - eu, Raimundo e Holmes - os outros mais velhos) para dar apoio à Bandeira. Viajamos de Januária a São Sebastião dos Poções na carroçaria de um caminhão que levava mercadoria para Cocos - Ba. De São Sebastião dos Poções à fazenda de Antônio Montalvão seguimos caminhando. Dura jornada.
Na fazenda fomos recebidos pelo proprietário que, no terreiro praticava tiro ao alvo, o que muito nos preocupou. Ele nos acolheu carinhosamente - “os filhos do Coronel Almeida” - dizia ele. No outro dia nos levou em seu jipe ao Núcleo onde permanecemos durante três meses trabalhando em setores diversos - a minha tarefa e do Raimundo era bater tijolos - os tijolos que levantariam as primeiras casas do Núcleo. Lembro-me que quando de uma visita do Coronel Almeida ao Núcleo, ali chegou, também, Antônio Montalvão e o que ficou na minha lembrança foi ele e o coronel fazendo numa disputa de natação no Rio Carinhanha - eu torci ardentemente pela vitória do Cel. Almeida que perdeu a disputa. Anos mais tarde, já como professor e diretor de Centros e Núcleos da Fundação Caio Martins, durante uma década passei por Montalvânia seguramente seis vezes por ano. De uma feita, quando caiu um intenso temporal na região, nosso carro ficou retido do outro lado da Grota do Paiol cuja ponte fora arrastada pela enchente. Deixamos o carro, atravessamos a água agarrados em uma grossa corda presa de barranco a barranco e fomos para Montalvânia onde ficamos dois dias à espera de socorro aéreo, o que não aconteceu. Teríamos de viajar por terra, então, mas a cidade estava ilhada, carros pequenos não podiam vencer o trecho de saída, numa baixada, totalmente tomado pela água de um córrego. A solução foi contratar um caminhão para transportar uma rural que fretamos para transpor a área alagada. Assim foi feito. Mais tarde, como diretor da escola Caio Martins de Esmeraldas estreitei mais ainda os laços com Montalvânia através de seus filhos e filhas que foram cursar naquela escola - Curso Técnico em Agropecuária e Magistério. Foram muitos deles, hoje cidadãos destacados, muitos de volta à região onde prestam serviços em várias áreas. Isto me alegra muito.
Agora, voltando à Montalvânia, mergulhei no passado e quando cheguei às margens do Cochá, vendo-o ainda tão bonito, tão farto de água, senti-me atravessando uma mata fechada, pisando em grosso tapete de folhas secas que estralavam à medida que avançava os passos, às vezes assustado com o agitar de asas de belos jacus e rezando para não encontrar com uma onça pelo caminho, tudo para chegar às margens do Cochá que ficava bem acima do Núcleo. Lá estava ele descendo suavemente totalmente coberto pelas copas de altaneiras árvores, nem uma nesga de luz e, por isso, suas águas tinham uma tonalidade escura.
Agora volto a encontrar o Cochá e com um propósito - juntar com o pessoal de Montalvânia, em especial com o vice-prefeito Horácio Sales e o escritor Almir Sabino que, em seus depoimentos no transcorrer da reunião do Comitê, revelaram a grande paixão pelo rio, para, também, lutar pela preservação dele. Dou-me, assim, muito feliz pelo reencontro. Mais ainda pela maneira tão carinhosa, hospitaleira e calorosa com que fomos recebidos pelos amigos de Montalvânia. Não tem jeito, é repetir, Exupéry - “Tu te tornas eternamente por aquilo que cativas”. Viu só, Montalvânia? Voltei e sou um dos seus, cativado que fui.




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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SÃO ROMÃO NINHO DE TRADIÇÃO



Neste ano, enfim, participei da tradicional festa de Nossa Senhora do Rosário em São Romão - muitas vezes ensaiada e agora realizada pelo compromisso firmado com a são-romanense Rita de Cássia, com um motivo especial - sua família se preparava com fé e amor para a festa que, neste ano, teria sua irmã Rosália como rainha. No sábado peguei a estrada tendo André e Guilherme como companheiros. Na chegada um imenso congestionamento na travessia do Rio São Francisco - tanta gente buscando São Romão. Fomos recebidos por duas ex-caiomartinianas: Darluce e Neinha. Outros lá estiveram, antes, mas como atrasamos muito, foram se preparar para a missa, pois já caía a tarde. Fomos instalados na bela e confortável casa de Darluce e Pedro (na fachada da casa afixada uma gentil faixa pelos meus queridos ex-alunos e amigos dando-me as boas-vindas na acolhedora São Romão. Emocionante), na moderna avenida Presidente Tancredo Neves - como São Romão tem crescido e se modernizado! Depois de um breve descanso, com tempo para agradável bate-papo acompanhamos Darluce para o primeiro ofício religioso de nossa participação - o encerramento da novena de Nossa do Rosário. Chegamos ao largo onde foi erguida a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Disseram-me que erguida por escravos que têm a Senhora do Rosário como padroeira. A igreja guarda, ainda, muito da arquitetura original, o que se vê em uma parte do telhado - uma parte de telhas e madeiramene antigos, as arcadas dividindo o interior em três naves e um belo altar onde, lá do alto, reina a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Fiquei sabendo que o altar original sofreu um sinistro. A missa foi celebrada pelo padre Arimatéia que passou por São Francisco, com participação de um belíssimo e afinado coral. No final da missa a coroação de Nossa Senhora por um grupo de anjinhos com direito ao acompanhamento da banda de música Sete de Setembro com o maestro Mário Torres (Marão).

O CORTEJO DO REI

Veio uma parte muito esperada e emocionante: a coroação da rainha e do rei da festa (Cosmo e Rosália), sob muitos aplausos e vivas. Seguiu-se, depois, o cortejo levando o rei à sua casa. Muita gente e a banda animando a caminhada. Na entrada da casa do rei a guarda paramentada com muita distinção e dignidade, investida na alta autoridade de guardiães da tradição de Nossa Senhora do Rosário. Uma enorme tenda no quintal da casa com duas mesas cobertas fartamente de diversos alimentos. Numa tomaram assento a guarda do rei e, na outra a banda de música que executava de minutos em minutos variados números musicais - dos dobrados à música popular, tudo com muita graça e harmonia. Alcólitos se ocupavam de servir a multidão levando balaios e mais balaios de quitandas acondicionadas em sacolas que eram ali consumidas ou levadas para casa. Fartura satisfazendo a todos. Ficamos ali, eu André e Guilherme vivendo aquele momento mágico.

ALVORADA

Fomos dormir bem tarde, mas isso não impediu que às 4h Darluce desse o primeiro aviso: a alvorada. Levantei-me - o que não fizeram André e Guilherme. Cedo estava, por isso voltei para mais um cochilo. Às 5 h não teve jeito. Lá fomos, eu e Darluce, na fresca manhã sanromanense com o céu ainda apinhado de estrela, para a casa do rei, onde teria início a alvorada puxada pela banda 7 de Setembro. Na grande praça uma multidão ainda participava do show que varara a noite com a apresentação de diversas bandas - comemorava-se o aniversário da cidade, concomitantemente à festa religiosa. Na última banda, vários músicos da banda Sete de Setembro e, por isso, a alvorada ficou prejudicada.
Chamei Guilherme e descemos para a orla do rio para esperar os Caboclinhos que, segundo a tradição, desceriam o rio embarcados em uma lancha. Ali, por bom tempo, contemplamos a beleza do Rio São francisco beijando os barrancos e a ilha Guariba, palco de importantes capítulos da história de São Romão. A chegada dos caboclos estava atrasada e tinha motivo - a lancha estava encalhada em um banco de areia no meio do rio. Enfim ela se aproximou do cais, dela desceram os caboclinhos. O guia à frente puxando duas alas de guerreiros enfeitados com belos cocás e tangas de buriti. Passadas firmes, elegantes, ritmadas e a vibrante música puxada pelo cacique e respondida pelos demais guerreiros.A interessante e muito bonita a coreografia, no ir e vir, como se quisessem buscar o futuro, mas com a necessidade de resgatar o passado. Eles tomaram conta da avenida com sua dança frenética e o canto enchendo o ar. Sumiram a na direção da casa do rei.
Eu e o Guilherme fomos para a casa da rainha, pois por lá chegava a turma do congado comandada pelo Melé, uma figura fantástica, muito pequeno, mas cheio de energia, alegria e simpatia. Tomamos café com eles e, é claro, saboreamos tradicional paçoca de carne seca. Depois, como um bando de codornas espantadas com a chegada do homem, sairam eles depresa, dançando e cantando, avenida acima - foram se juntar aos caboclinhos para conduzir o rei ao palácio da rainha.
Minutos depois, desceu o cortejo: caboclinhos e congado à frente, um espetáculo de rara beleza, muita graça. Com eles mergulhamos no passado, trazendo a história das gentes de São Romão, desde os índios que habitaram a ilha Guariba, aos negros que levantaram a Igreja Nossa Senhora do Rosário. Uma beleza o movimento deles, como onda do São Francisco tocadas pelo vento. Um grupo avançava contra o outro e se entrelaçavam. Difícil imaginar se daria certo, se não ficariam enroscados - os caboclinhos batendo as preacas em ritmo gostoso, firme, cadenciado e os congadeiros acompanhando a batida dos pandeiros jogando o corpo de um lado para o outro com graça. Misturam-se, de repente. E do que poderia parecer um tumulto avultavam-se os cantos definidos de cada grupo. Alternavam-se nas posições - ora um junto ao séquito do rei, ora o outro. O rei descia tão soberano ao lado do pajem ostentando enorme guarda-sol. Os dois protegidos por uma guarda formada por vários homens paramentados, circunspectos, formando um quadrado com uma armação colorida. Atrás, vibrando os mais ardentes e belos dobrados, a Banda Sete de Setembro, então completa e em uniforme de gala. O cortejo chegou à casa (palácio) da rainha que veio à porta receber o rei, acompanhada de sua inseparável e emocionada mucana e cercada pela família real, tendo à frente a rainha mãe, dona Terezinha, tão empolgada com aquele momento incomum e privilegiado da festa religiosa e cultural de São Romão. Recebeu o rei e todos aplaudiram. A banda festejou com dobrados. Dançaram mais vibrantes os caboclos e congadeiros. A rainha foi levada ao cercado e se juntou ao rei e, dali, seguiram para a igreja Nossa Senhora do Rosário enchendo as estreitas e históricas ruas de São Romão de cores, música e um quê de mistério de coisas guardadas e passadas pelo tempo. O cortejo deslizou entre casario antigo - é a parte mais velha da bela São Romão. Passou pela Igreja do Divino Espírito Santo (matriz), pelo casarão que serviu como cadeia, no passado, e hoje, museu; passou, ainda, pela tradicional escola Afonso Arinos, berço da cultura local e, enfim, chegou à igreja, onde rei e rainha entraram triunfalmente sob aplausos da multidão de fiéis.
Depois do ofício religioso, a recepção na casa da rainha. Uma ala da avenida foi fechada e forrada de mesas para que todos pudessem participar da grandiosa festa regada por cem caixas de cerveja - “apenas” - e uma infinidade de pratos. Afinal, foi um ano de preparação.
Uma festa que fica guardada nos olhos e no coração para sempre.


OS CABOCLINHOS

Escrever sobre os caboclinhos nunca terá a mesma emoção e sensação de que acompanhar o grupo em atividade. Dias atrás eu tive a oportunidade de acompanhar, pela primeira vez, o desempenho do grupo de caboclinhos de São Romão, famoso em toda Minas Gerais, por sua tradição.
Não tive como conversar com o chefe dos caboclinhos, pois o meu tempo foi curto e eles estavam em plena atividade juntando-se ao congado e banda de música Sete de Setembro para conduzirem o rei e a rainha da festa de Nossa Senhora do Rosário à igreja para a celebração da Missa Festiva, encerrando as atividades em homenagem à santa. Não fiquei sabendo como surgiu o folguedo em São Romão, por isso, nesta página vou mesclar o que ensinam alguns renomados mestres a respeito e o que senti nas horas que passei com o grupo.
Diz o mestre Câmara Cascudo sobre os caboclinhos - que ele denomina como cabocolinhos - “trata-se de grupo fantasiado de índios que percorrem as ruas das cidades do Nordeste do Brasil. Com danças dramatizadas eles representam as lutas entre cabocolinhos e os brancos. Diz mais o mestre: “embora pareçam danças de origem ou aculturação ameríndia, na realidade são de influência africana, correspondendo ao Auto dos Congos, verdadeiros Reisados que, juntamente com o Auto dos Cabocolinhos, deram origem ao Guerreiro”.
Para Ariano Suassuna, o “caboclinho é a expressão da genialidade e miscigenação do povo brasileiro”
Existem outros entendimentos, como o do padre Fernão Cardim no livro Tratado e Terra da Gente Brasil que registrou, pela primeira vez, o folguedo, isto em 1584, dando-o como de origem indígena. Há sentido, pois caboclo significa a mistura de índio com branco e caboclinhos são filhos dos caboclos.
A beleza do folguedo está na coreografia, muito rica, com passos que exigem desenvoltura e excelente forma física, pois dançam e cantam por horas a fio percorrendo as ruas da cidade. A música é leve e ligeira, com os caboclinhos provocando constante som - muito bem ritmado, o estalido seco das preacas - conjunto de arco e flecha (a flecha tem uma saliência na base e a outra parte afulinada e, assim quando ela é arremessada passa quase toda por um orifício aberto no arco, retendo-se no final, com forte estalido, quando a saliência da base vai de encontro ao orifício). O cacique, à frente do grupo vai puxando versos ou loas que são repetidos pelos demais caboclinhos - em São Romão, quando acompanhei o grupo, os versos se referiam ao rei e à rainha do Rosário.
Causou-me muita emoção e alegria foi ver a presença de muitos jovens e crianças compondo o grupo. Isso é garantia do folguedo em São Romão, o que, certamente, já vem de longas eras. Bonito, precioso e emocionante, é o que se pode dizer sobre o grupo de Caboclinhos de São Romão.
Vou aguardar informações que me foram prometidas por minha amiga Darluce, da sua pesquisa de mestrado, para dar mais informações sobre tão significativo trabalho cultural da bela São Romão.

CONGADO EM SÃO ROMÃO

O congado é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana adotada em algumas regiões do Brasil. Segundo o mestre Saul Martins o congado, na raia dos folguedos, é a maior ocorrência folclórica em Minas. É do mestre a descrição a seguir: “A festa é de devoção, um ritual sagrado, embora o profano a ela se associe. Entra-se no Ciclo do Rosário no princípio de agosto, mas comemora-se 7 de outubro o dia da padroeira. Abrange, pois, três meses seguidos. Ainda que frequentes, registram-se manifestações fora desse trimestre, como se vê em Serro - final de junho - e em Conceição do Mato Dentro - começo de janeiro para citar só dois exemplos.

Nesse evento, consideram-se quatro partes:
1) Reinado, que se compõe de rei e rainha congos, princesa Isabel, juízes e juízas, dignitários e mucamas, entre outros. De sua constituição devem participar os membros de crença. O papel do reinado é unir as diferentes guardas em um mesmo sentimento de fé em Nossa Senhora do Rosário e manter coesos os de cor. Sua origem se explica principalmente com a fixação de lembranças de época faustosa da rainha Ginga de Angola e de Chico Rei, o lendário animador de Vila Rica. O registro mais antigo da ocorrência em Minas pertence a André João Antonil, que aqui esteve de 1705 a 1706. Em sua obra, publicada em 1711, notícia dessas festas.
2) Embaixadas, que se traduzem em homenagem ou em destemor e valentia. E parte dramática, representada, e inclui a rezinga ou luta de espada entre embaixadores.
3) Guardas, que são em número de sete, menos o candomblé. Cada uma destas possui vestuário próprio e autonomia - é uma unidade rítmica e coreográfica. Segundo o lugar, em vez de guarda, que é a designação mais comum, chamam-lhe a corte (ô), banda, terno, batalhão.
A guarda não terá menos de doze de varsais. Há-as com trinta, quarenta ou mais. Varsal é cada um dos figurantes não graduados de qualquer guarda de Nossa Senhora do Rosário. A palavra, talvez, seja modificação prosódica de vassalo Curioso: em Alencar, Para, ela assume a forma valsar. Cada guarda tem função específica no Congado, bem definida.
4) Todos os figurantes, quer sejam membros do reinado, das embaixadas ou das guardas, pertencem à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, instituição religiosa que se fundou em Minas Gerais desde os albores do século XVIII, inspirada nas Corporações de Ofício da Idade Média.

Em São Romão o congado é tradicional, está intimamente ligado à festa do Rosário, com inspiração na igreja erguida em honra à Nossa Senhora do Rosário, por negros, segundo os locais. Localizado em um largo, no final de uma das mais antigas ruas da cidade, no limite urbano, apesar de ser uma construção simples, torna-se imponente por sua história e fervor religioso do povo, sempre puxado pelo congado.Deve-se ressaltar, no congado de São Romão, a liderança de Melé que esbanja energia com sua baixa estatura, e, ainda, a presença de muitas crianças, o que garante que a tradição será mantida.
De quando vem o congado de São Romão, passando de pai para filho? É o que faz a sua bela história, para alegria do povo de São Romão e todos os amantes do folclore. É, sem dúvida, um registro histórico e cultural.



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VISTAS DE SÃO ROMÃO



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Fotos: Guilherme e João Naves
Diagramação: Jonas
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010