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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O HOMEM E O RIO

Para lembrar o aniversário do nosso amado São Francisco - 5010 anos.

Pois é o que conto, não por inferência do saber de livros ou de conselhos de entendidos, mas por ter morejado no sertão: a vida bucólica é modo do homem ser natureza e da natureza ser homem, um continuado e descontinuado do outro conforme o sopro dos ventos. Não queira precisar indagações biológicas. A certeza tem pousada na simplicidade que brota do ambiente onde o espírito tem mais profundeza que a matéria, a gosto, poderia se dizer, dos fisiocratas de tantos anos idos. É que muito do homem permaneceu, no costume de vida que teve – ele é ontem pelo atavismo de seus modos e viver; ele é hoje, pelo modo de romper a vida, como o correr dos rios, volteando e volteando, sem necessidade das retas; ele é amanhã, no modo amoletado de gostar da natureza e de se deixar por ela ser envolvido naturalmente, demoradamente, dolentemente, eternamente....

Homem-terra; terra-homem – é preciso a interação para que subsistam ambos.
O tempo correu desleixado... Arre! Um entendimento nasceu nas fontes das sabedorias de livros e teorias: preciso era socorrer o homem da letargia, do esquecimento, do abandono em que se encontrava no campo, à margem das grandes conquistas levantadas por revoluções e evoluções. Sim, imaginaram, com boa vontade – ou não – que ele se encontrava à margem de um novo tempo inaugurado. Quebraram-se os elos e, no aplicar de doutrinas avançadas, acabou-se por violentar um estado de vida natural, podendo-se dizer que o avanço dado contrariou uma ordem natural, mudando o rumo de uma vida sedimentada ao longos de séculos. Daí, sem nunca ter pisado, descalço, no chão, arrebentando o dedão do pé num toco, ou tomado banho pelado num córrego cheio de bagres e traíras; sem sentir o orvalho da madrugada escorrendo na pele e a brisa fresca cantando nas cavernas das orelhas; sem apertar as tetas de uma vaca e dobrar a valentia de um potro, querer mudar o rumo da história é capaz de provocar um desastre humano!
Taí, o sertanejo, o pelejador no campo, é, antes de tudo, uma extensão da terra e dela não se desassocia – ela é verdadeiramente a sua vida, a sua mãe. Cortar esse cordão, essa ligadura, é roubar-lhe a essência do viver. Vira zumbim....
De guardar tantas recordações e de gostar do que vi, faço este pálido registro, contrariando o que muito se fala e diz, quando se separa a alma do material – para dar mais valor a este. Vou lembrar, enquanto ainda é tempo de confirmar, umas coisinhas de nada do que vi e vivi no sertão do homem-terra. Depois, sei, uma ruma de coisas mudaram de vez....



O corpo

Das noites seculares vêm os ensinamentos que garantem a vida...

De como o homem do campo cuida da saúde é ciência empírica que vem dos tempos perdidos nas noites seculares. É comparação grosseira dizer, mas faz sentido por ser natural: a maneira do cachorro cuidar dos incômodos gástricos, passando de carnívoro a herbívoro; também o gato tem seus dias de capim; o boi nas precisões do organismo lambe barro para saber do sal, tudo leva à relação íntima do ser com a natureza, é o instinto que leva à preservação. Com o homem, da necessidade vem a repetição do ato e, com os tempos vira conhecimento. O homem compreendeu a natureza e a sabença foi escorrendo de descendência em descendência.

Uma grande figura se destacou neste capítulo: Zé Guedes, um profundo conhecedor das riquezas fitoterapas do cerrado.

Surgiram, então, a figura do curador e do raizeiro, que conhece cada planta e animal do sertão, relacionando-os com as doenças que vem de padecer. Até os menos entendidos conhecem do trivial no tratamento dos incômodos contumazes: febres, dor de barriga, úlceras, gripe e outros mais comuns. De um pouco para cada um é repartido o entendimento, pois o homem é natureza.
Lá no seu rancho, na entrada de um tabuleiro e saída de um cerrado, ele dispõe de sua imensa farmácia: raízes, cascas, folhas, flores, frutos, sementes e, na fauna, outro tanto de ingredientes para seus cozidos, xaropes (garrafadas), unguentos, emplastos, banhos, pós...
Zé Guedes*, raizeiro de fama, catalogou mais de duzentas plantas das quais faz seus remédios salvadores. Deles, alguns:
Sambaíba: a resina da casca - usada para enxaqueca, sinusite e dores de cabeça. O chá das flores para dores de estômago e resfriado. O chá da raiz é utilizado para dores pulmonares
Assa-peixe: o chá da planta inteira - para gripe e, externamente, para machucados.
Barbatimão: dos mais famosos e usados – chá para problemas intestinais, gastrites e úlceras estomacais e dores em geral. É usado externamente como cicatrizante.
Batata-de-purga: chá - para prisão de ventre e como purgativo (depurar o sangue).
Gagaita: O chá da flor - para problemas dos rins e bexiga. O chá da casca como regulador mestrual
Carapiá: o chá da raiz é para resfriado e febre alta. O pó da raiz para desobstrução das vias respiratórias.
Grão-de-galo: chá da raiz e casca - como vermífugo.
Jatobá – chá da resina e da casca é para problemas respiratórios. A casca na cachaça é usada como estimulador do apetite.
Miroró: o chá é para emagrecimento. Curiosidade: o uso de seus ramos para açoitar animal é vedado, pois pode levá-lo à morte por secamento das carnes.
Papaconha: o chá da raiz é utilizado como purgativo para febre e resfriado
Pau-santo: a casca curtida em água fria é utilizada externamente para irritação dos olhos.
Poaia: chá da planta inteira para febre, resfriado. A raiz seca, reduzida a pó, é usada como purgante.
Sucupira-preta: casca, usada contra sífilis e diabetes; raiz anti-reumática e depurativa.
Vergateza: o chá da raiz - afrodisíaco masculino e feminino.
Lagartixa: cozida viva - chá para curar sarampo.
Banha de sucuri – serve para dores reumáticas.
Oléo de capivara – também para dores reumáticas e doenças respiratórias.
Banha de galinha – serve para inflamações respiratórias, atua como descongestionante.
Casco de tatu preto: adicionar o pó do casco torrado, à cachaça para doenças do fígado, inchações nas juntas e pernas.



O ESPÍRITO

De como o homem do campo vence as dificuldades valendo-se, quase sempre, do conhecimento empírico

O padecimento pode ser do espírito. Então há de se valer dos conhecimentos vindos dos antes, com toda sabedoria, certeza e aceitação, por ser de tão correto e factível de curas profundas.
As benzeduras em primeiro lugar. Não tem quem quebre a fé que se tem num bom rezador ou numa senhora rezadeira ou benzedeira. Eles sabem o mistério de penetrar na alma da pessoa e, lá do fundo, arrancar os amuos para por na pessoa a vontade de viver de novo, a querência de se abrir para o mundo, quando se está tomado de incômodos ruins, coisas de mal olhado, de infuncas do "coisa-ruim", despeito e até mesmo fraqueza da cabeça.
Pode-se, ainda, prevenir, antes do acometimento dos males, valendo-se das simpatias, pois cada um, na medida de sua crença pode fechar o corpo contra os malefícios que rondam o homem por fruto das invejas, cobiças e maldades tantas e até mesmo contra faca e bala. Para fazer suas simpatias ele usa: pé-de-lobo, chocalho de cascável, semente de mucuna, palha de milho, amuletos, patuás e um tantão de coisas.
O curador é uma figura respeitadíssima ... e temida. A vida do sertanejo gravita em torno do curador. O curador pode curar, mas pode, também, atrapalhar a vida da pessoa, se quiser.

O saber

Ele sabe que sabe mas fala que não sabe...

À vista o homem do campo pode parecer um simplório. Não se dá nada por ele, aquele timpinho desmiliguido, recolhido, cabeça baixa encimada por um chapeuzinho de palha ou couro, roupa de algodão grosso, precata de couro cru e o pito de palha na boca ou atrás da orelha, de pouco papo e jeito abestalhado.
Qual o quê! Fica perto dele umas quadras para se surpreender e logo ver que se está diante de um ser todo especial: contemplativo, espiritual, supersticioso, solidário, sábio no seu universo, como ninguém. O seu conhecimento da natureza é espantoso, formidável, inda mais considerando-se que sua fonte vem da observação e das experiências acumuladas, passadas por seus ancestrais. Cada detalhe captado é um rumo para as suas decisões; nada fica despercebido e, por isso, numa interrelação constante ele se faz parte da natureza, um ser integrante, um galho da vida.
Eis alguns casos comprovados:
Ele é doutor em meteorologia. Anuncia com muita antecedência se o ano da próxima cultura será bom ou ruim de chuva, tendo como informações as "marcas de São João" e o comportamento de animais: jacaré e tartarugas nas estradas, longe dos cursos d´água ou lagoas - sinal de grande enchente; a correção de formiga ou cupins, traz o mesmo anúncio. De olho na flora, capta sinais registrados pela experiência: a produção de frutos silvestres – pequi, cabeça-de-nego e outros, quando é abundante, anuncia a carência de chuva – a natureza compensa a perda das roças com frutos naturais. Ele prevê a chegada das chuvas, também, pela velocidade do vento. Como? Só a experiência explica.
Conhecimento da matemática e física é visto na construção dos engenhos de cana, oficinas de farinha, carro-de-bois e outros instrumentos. Como explicar seu conhecimento para chegar à perfeição na construção das peças do engenho – as três moendas rodam à perfeição, sem travar os dentes, sob a pressão das canas introduzidas; a balança que move a moenda principal, puxada por bois, de uma leveza espantosa – o princípio da alavanca aplicado. O mesmo se vê na colocação das serrilhas nos molinetes da fábrica de farinha – a distribuição e a distância entre elas devem ser precisas para que não ocorra o travamento do eixo. Como ele chegou ao entendimento da contagem milimétrica sem qualquer instrumento de medição? O artesão dos instrumentos musicais (ele fabrica todos instrumentos musicais para seus folguedos, especialmente as folias: violão, viola, rabeca, caixas, pandeiros, balainhos, reco-reco...) Fazer um instrumento tão delicado como uma rabeca não é ofício facilitado, não é só juntar peças de madeira - existem parâmetros que devem ser observados com relação ao som que ela deve produzir. O mesmo se diz do violão, viola e caixas – há uma relação entre todos, quanto à sonoridade, a afinação, o que se vê, com surpresa e em especial, nas caixas (é afinada com a viola). Como se explica esse conhecimento para quem sequer tem o curso primário?

ARTE

Na música o homem revela toda sua simplicidade e cumplicidade com a natureza: é um encanto

A arte: a sua alma mergulha na simplicidade e alça, depois, vôos levando as imagens que buscou no coração da terra para nos mostrar suas coisas - é de riqueza de inexcedível singeleza.
A música é agradável, simples e pura. A inspiração está na própria natureza - o canto das aves: sabiá, canarinho, Inhaúma; os piados do ariri; os guinchos da gaivota; a graça e leveza da garça e a placidez do jaburu; o comportamento do guacho; a sutileza da raposa; a utilidade do gambá; o abraço do tamanduá e a graça dos peixes, entre tantos animais que fazem parte de sua vida. Tudo serve de inspiração para suas décimas, pasquins e guaianas, em que conta histórias, envolvendo as pessoas do seu relacionamento ou para as danças do quatro, catira, lundu, onde as pessoas, com suas paixões são mescladas aos bichos e à natureza, com graça e simplicidade.

"Canarim preso na gaiola / que tristeza não será"
"Coitadim do ariri / ele vai fazê seu ninho / na gaia do pau mais alto/ lá na beira do caminho / Vai-tum, vai-tum, vai-tum, ariri / vai fazê seu ninho"
"Guacho véio tava dormino / acordô com a cachorrada / Ei! guacho véio / Cê perdeu a madrugada".
"Olelê carneiro dê! / Olalá carneiro dá / Quem quisé carneiro manso / manda o vaqueiro amansá".

Nas folias ele mergulha a sua alma, a sua vida, por extenso, na nostalgia que o prende às vidas passadas e o alça ao amanhã, com que não se preocupa, pois lhe basta o vivido, mas que ele passa com sua história. Nas noites caminhadas pelas trilhas, recebendo chuva ou o orvalho, nas madrugadas, indo de rancho em rancho para saudar presépio e cantar com os "compadres", ele escreve a história de sua gente. É o telúrico que se manifesta nos atávicos folguedos.
No artesanato - da seda ou palha do buriti; da taboca, do barro, do couro, da madeira macia como a imburana vermelha ou o duríssimo pau ferro ou jatobá - em tudo ou para tudo, ele transporta parte da sua alma, em traços leves, meigos e ricos, fazendo nascer objetos que vão compor seu dia a dia. A relação dele com determinadas plantas é de total dependência, do nascer ao morrer, como o buriti.



LENDAS E MITOS

No passado, do tempo sumido, o homem plantou parte de sua vida; viajou noites e trouxe seus temores perpetuando o seu modo de ser/viver.

As lendas e mitos: estão internalizados no homem como um sentido de vida. Neles ele encontra explicações para muitos fatos que o envolvem e que servem de freio para muitas de suas intenções. O fazendeiro que virou rico da noite para o dia é logo denunciado de ter feito "pacto com o famaliá"; o Romãozinho é invocado para por freio no menino traquina. O caboclo d´água entra nas histórias dos pescadores para mostrar os perigos do rio e os cuidados que devem ser tomados, pois, grande parte deles não sabe nadar e de como ter – ou não – fartura de peixes numa pescaria; a décima do Rio Abaixo, o temor arraigado do "coisa-ruim", uma bela melodia, uma história interessante, evitada com o sinal da cruz.
No campo da crendice, deve-se considerar a simplicidade, a alma pura e a bondade do barranqueiro que se sacia com a verdade que conheceu, que lhe foi repassada, sem querer saber além do necessário ou refleti-la, buscando extrair outra compreensão. Basta o que seus avós e seus pais lhes passaram. Aí tudo se torna mais simples e a vida flui com maior naturalidade, sem grandes indagações ou complicações.


O TRABALHO

O homem do campo tem na terra a sua única fonte de riqueza, sua ordem natural - o permanente convívio com a natureza. Tem-se o preconceito que ele come mal e pobremente. Ledo engano: ele jamais passa fome. Na terra busca o sustento sem grandes avexamentos, preocupações ou neuroses – é o plantar com sabedoria, no tempo certo, aquilo que precisa para seu sustento imediato, na quantidade que pode cuidar, prevendo a sobra para a catira a fim de se suprir daquilo que não produz – querosene e sal. Feijão (geralmente o catador que não tem como perder, fava ou guandu), mandioca (uma variedade de alimentos dela oriundos: farinha, tapioca, croeira, puba, margarina...), milho, arroz; a mamona para comercializar (uns chegam usá-la para extrair o óleo combustível para os candeeiros), algodão (alguns têm um tear rude numa tenda rústica, no quintal, onde tecem seus panos para costurar calças, camisas, saias e cobertas); um cercado de cana, para fazer a rapadura ou a garapa para adoçar o café da meninada; alguns pés de laranja, limão, mamão, caju, pinha e moitas de bananeiras. Alguns pés de fumo para suprir seus pitos; moitas de capim santo e erva cidreira; gamelas ou cochos nos jiraus (para evitar os bicos das galinhas) com salsinha, coentro, hortelã, malvão e poejo. Um poleiro para o pouso das galinhas que passam o dia catando bichinhos no quintal, sempre atentas para evitar as garras do gavião ou ataques de raposas e saruês; o cercadinho para a engorda dos leitões.De quando em quando é abatido um capado - é fartura oportuna para descansar do gosto do ovo e da galinha. O toucinho é salgado; os pernis pendurados à fumaça do fogão num processo lento de defumação; os pedaços menores são cozidos na banha e guardados em latas para serem conservados o tempo que for preciso. Quando a colheita de milho e mandioca é boa, aumenta-se a criação de porco e galinha. Se é fraca, diminuem-se os porcos e as galinhas – tudo tem que ser de conforme as posses É comum trocar dias de trabalhos com os vizinhos, os compadres – é o mutirão de tanto apreciamento, pois é oportunidade de conversar suas coisas guardadas, tomar umas branquinhas, cantar no eito, comer diferente e, ainda, de ocasiões, até dançar baile. É tempo para reunir e manter os laços tradicionais, segurar as amizades e fazer compadrios que se confirmam em volta das fogueiras de São João. Não trabalha à exaustão, só o suficiente. Guarda uma grande quantidade de dias santos, mas isso não faz falta à sua subsistência.
Uns lidam no campo, com animais, para um patrão rico: vaquejando ou tirando leite; domando animais, castrando ou viajando com tropas.
Com o seu trabalho ele lembra a lição dos fisiocratas: “somente o agricultor produz além do necessário para os seus próprios gastos. É então o excedente da sua produção que constitui o fundo econômico do qual vivem os demais membros da sociedade”
Talvez já não sejam tanto assim, com o advento da agricultura extensiva, mas o foi por séculos e séculos.


AS FESTAS

O ranchinho iluminado por lamparina e um mundo de sons que toma conta da alma

Como ele se diverte? Fácil, barato e salutar ao corpo e ao espírito. As tradicionais festas do solstício de verão: saudação à lapinha (folia de reis), com todo respeito e amor; as danças de agrado para o dono da casa: quatro e lundu. É um contentamento. São Sebastião, merece agrado com sua folia. De tal modo vêm as do solstício de inverno, a tríade Santo Antônio, São João e São Pedro – deles o predileto é o do carneirinho, por ter cara tão meiga. Agosto não passa sem a folia de Bom Jesus da Lapa que enche os corações dos fieis ao longo das barrancas do rio até sumir nos gerais, entrando em todo ranchinho perdido no mundéu e, de igual modo, com o mesmo fervor, a de Sua mãe, Nossa Senhora Aparecida. Nas datas móveis tem a do Divino Espírito Santo.
É emocionante acompanhar uma folia; a sua música as pessoas arrastam para um mundo de sons que tomam conta da alma: a rabeca repete as vozes, quase chorando, numa doçura de embalar; as violas traçam acordes e volteios acompanhados por violões que marcam seu passeio por dentro da alma e de fundo, numa suavidade fascinante, as caixas, apenas dizendo, num toque de saudade distante, muito distante, que estão ali, num tum-tum de chamar os santos para receber as oferendas dos corações embevecidos de foliões e acompanhantes. Um concerto que traz as notícias de muitas noites e histórias milenares, porque é brotado da alma dos homens, fluindo por seus dedos até às cordas que nos transmitem, então, a vida.


A FAMÍLIA

Onde come um come dois e onde comem dois, comem três...

O regime familiar é o patriarcal. Mulheres e crianças são submissos, não têm voz ativa e pouco se manifestam, dando tudo como muito bem sob a proteção do "senhor meu marido", ou do "senhor meu pai".
Por comum é numerosa e se explica: não há recursos para contratar serviços e tocar os trabalhos da pequena propriedade, o que necessariamente envolvem o homem, a mulher e os filhos. A cada ano aumenta a prole, o que faz lembrar um tipo popular dessa região, Pedro Duro: “aumenta a prole porque num acredita em pirla e faz a vontade de Deus” e assim vai até a mulher se exaurir de vez, quando não falece, antes, de parto, muito comum, pois são sempre feitos por parteiras – mulheres veneradas, também chamadas de "mãe de apanhação".
A educação escolar dos filhos geralmente é relacionada ao trabalho na lavoura que sempre está em primeiro lugar – problema que vem sendo resolvido com a implantação de escolas rurais facilitando o acesso da criança, evitando as grandes e demoradas jornadas ausentes de casa.
Dorme-se com as galinhas e acorda-se com a Estrela D´Alva.
Os mais velhos são respeitados religiosamente e sempre têm a derradeira palavra.


VÍCIOS

Vício é modo de dizer, pois o que se tem mesmo é o costume velho

Vícios: nem se pode dizer que seja um vício o costume antigo de "pitá" e tomar uns golos. É de tradição, pois, como se diz no sertão: "de mamano a caducano todo mundo pinta e bebe pinga". Raros são os bêbados contumazes, que aborrecem e criam problemas. Bebe-se nas folias, nas festas e nos fins de semana, quando permite o dinheiro, pois não são muitas, e próximas, as vendas, por isso, para beber fora das ocasiões de festas é preciso comprar um litro ou uma meia, e isso nem todos podem.
O pito é de fumo de rolo, da plantação do quintal ou de um morador da região – é o paiero que ele tem quase sempre na boca ou atrás da orelha, o tempo todo. O paiero e homem parecem companheiros. As paradas na limpa das roças são constantes para pitar e aí se vê como é demorado acender o paiero com a binga (geralmente muito rústica: um recipiente feito de chifre de boi, recheado com mecha de algodão seco que é aceso através de fagulhas provocadas por um pedaço de ferro - "fuzive" - fricionado numa pedra de fogo). A mulher não é de muito pitá; sua preferência – e isso é comum – é mascar fumo. Dizem que é bom para clarear os dentes.
O fumo e a cachaça são muito usados em remédios. O fumo com a cachaça para curar picadas de insetos e até de cobra. A cachaça vai em quase tudo que é raizada, o que acaba sendo uma boa desculpa para sempre tê-la em casa.

O RESPEITO

O homem do campo vive em dois universos - no que é rei e no que é vassalo

Deus, em primeiro lugar, depois o padre e, seguindo, os mais velhos. Deus lá no alto, mas aqui na terra ninguém tem mais prestígio e merece mais respeito do que o padre. Dele é o melhor lugar na mesa, a melhor comida, os melhores pedaços da galinha, os doces, a cama e forros especiais. Ele é tão especial que a água em que toma banho não é jogada fora: vai para as garrafas, pois existem muitas simpatias apontando suas excelências de curas. Seguindo a linha vem o pai, a mãe e os irmãos mais velhos. As pessoas de fora também são muito respeitadas - sempre recebidas com reverência e, pelos meninos, com o pedido de bênção.
O homem do campo, em seu território, sabe tudo, domina tudo, fala com propriedade do seu universo – dos bichos, das plantas, dos remédios, do regime de chuva, do tratamento de animais, da caça e de tudo que o cerca. Fora do seu universo ele olha, invariavelmente, para baixo quando fala com as autoridades – prefeito, juiz, delegado, polícia (dos quais tem verdadeiro pavor) ou comerciante rico. Interessante anotar, no caso, que embora abaixe a cabeça, não é comum tirar o chapéu, nem quando adentra numa casa, só o faz na igreja, quando participa das rezas ou nas folias, quando da saudação do Menino Jesus. O chapéu é parte do seu corpo, continuação de sua personalidade. Todos fazem o uso, desde o pequenino ao mais idoso – quem não o usa é tido como doido. As mulheres preferem o pano prendendo os cabelos, descendo as pontas nas costas. De hábito o homem fala pouco, muito pouco mesmo. É monossilábico – "Inhor sim; inhor não". É tão resumido que muitos deles respondem o cumprimento de bom dia e boa noite, simplesmente com um "dia" ou "noite". De comum fala mesmo quando é perguntado e não estica conversa. "Quem conversa muito dá mio prus bode" - dizem. As mulheres falam menos ainda com estranhos ou com as visitas, sequer fazem parte das rodadas, das conversas, ficam sempre à parte, de longe, só comparecendo se chamadas.


A ÁGUA E A TERRA

No sertão, se não sinal de água, não há homem de ficada...

Não se encontra um rancho perdido no meio do cerrado. Se uma fumacinha subiu de uma chaminé é possível logo deduzir que, por perto tem água e uma tira de terra boa. O homem não se instala longe da água: córrego, vereda ou onde pode abrir uma cisterna. Ele tem métodos e noções para saber da boa localização de um bom lençol d´água - uso da forquilha de um arbusto (com ela mapeia o chão – a ponta da forquilha pende, quando localizado um veio d´água) e a observação das plantas que só crescem onde há fartura de água no subsolo: pimenta-de-macaco, sambaíba, quaresmeira e outras. Não carece de ser muita água, pois pouco ele usa. Vasilha para lavar são poucas; roupa lava-se com raridade, pois geralmente ele usa a mesma muda por tempo indeterminado, no trabalho. Vestir roupa limpa, passadinha, só por ocasião de missa no tempo das desobrigas ou quando das idas à cidade. O banho também não é exigência diária..
Ele precisa da terra, de onde tira todo seu alimento, mas a prática do cultivo é arcaica, como lhe veio dos anos passados e das farturas de terras, imensidões de matas e campos virgens. Entende que a queimada é necessária para matar os bichos ruins da terra e que, na cinza, a produção é maior. Faz sentido em um ano, nos outros a terra enfraquecida produz menos. Aí ele repete o processo e vê que, na cinza, dá-se mais e não aparecem "imundiças". Fora das áreas de cultivo, não estraga a terra, não procede a derrubadas, senão por absoluta necessidade: "furar abelha", tirar uns postes para fazer cercas, madeira para casa e por aí afora. Quanto à caça só abate o extremamente necessário: veado, tatu, teiú, inhambu, codorna, verdadeira e outros. A carne, o couro, o chifre, a pata, os testículos, a bolsa (gambá), tudo tem utilidade prática e indispensável à sua sobrevivência.


DOS TEMPOS IDOS

Resumo de uma história tão triste.

Essa história foi o ontem.
Gostaria de estar escrevendo e retratando a vida, assim, nos dias atuais. Lá se foram os tempos. Do meu primeiro contato com os gerais urucuianos até a entrada deste milênio, muita água brotou e secou no cerrado, muita areia foi arrastada para o Velho Chico e muita, mas muita coisa mesmo mudou no sertão. Hoje a vida do sertanejo não é nem mesmo um arremedo da que vi, vivi e aqui contei, só de lembranças e por achar, por experiência, que apesar da aparente pobreza, isolamento e coisas mais, que ele vivia muito melhor.
Antes, muito antes, acontecera o mesmo com os índios. “Criaturas ímpias, precisavam de uma religião; ignorantes, precisavam de escola e saber da leitura; selvagem, precisava ser civilizado” – chegou alguém, um “civilizado” e enxergou isso. Com o tempo muitos povos que nada tinham de selvagem – a não ser aos olhos dos pretensos civilizados – ficaram sem identidade: não conservaram seu estado natural nem foram transformados em "civilizados"; perderam suas raízes, não sabiam mais das suas coisas e jeito de viver e não aprenderam nada do branco. Ficaram no meio ou sem meio e, para completar, sem terra, sem tradição, viciados e doentes, muito doentes.
Quanto à vida no sertão, de como vi e vivi, não tenho autoridade para dizer se era melhor, só do meu gosto, da minha emoção, mas posso garantir que a transformação ocorrida foi para pior, em todos os aspectos, pois nela não se observou a relação do homem com o meio, com a natureza. Levou-o a uma vida diferente em que ele, de repente, passou a ser um acessório, desligado da natureza que lhe provia de bens materiais e espirituais.
Pode-se dizer, sem medo de estar enganado, que ele foi prostituído.
A vida mudou demais, muito mesmo. O sertão está virando cidade. Tem luz elétrica, escolas e igrejas de todos os credos, em todos os recantos – de repente, daquela relação ingênua, pura e simplista que ele tinha com Deus, quase fetichista, ele foi informado que para ganhar o céu era preciso dar dinheiro, dinheiro que ele não tem, mas tem que conseguir, senão... Foram abertas estradas largas para os automóveis; tem televisão por todo canto – enormes bacias das parabólicas; telefone fixo, celulares na cintura de jovens empolgados; motos e bicicletas rodando por onde antes trotavam garbosos cavalos e fortes burros – até mesmo no ofício de campear reses. A meninada se veste como os jovens urbanos, das capitais (muitos deles se aventuraram por São Paulo e Brasília-DF em busca de dinheiro) onde, quase todos adquiriram hábitos estranhos e, quase sempre, vícios perniciosos. Quando voltam ao sertão, é uma festa, pois chegam coloridos, trajando imensas bermudas, camisões, bonés e tênis grossos; rádios e máquinas fotográficas; brinquinhos na orelha e adereços espetados no nariz; correntes grossas enroladas no pescoço e pesadas pulseiras nos braços; um palavreado ininteligível e quase sempre – com ar urbano e importante – desejando saber o nome de coisas que foram parte de sua vida num passado recente, tendo-as como novidades. Manifestam estranheza quando veem um grupo de foliões e não se identificam mais com as danças do quatro e lundu, com o batuque das caixas – só sabem como rebolar ao som estridente da onda, que repete à exaustão em seus gravadores – uns imensos para mostrar importância.
Não foi tudo. Veio o êxodo rural. Os espaços foram ocupados pelas grandes empresas, apertaram os campesinos e muitos se viram obrigados a deixar o campo – por bem ou por mal. Era preciso espaço para o plantio extensivo de pastos, soja e eucalipto. Teve mais: o Estatuto da Terra e a extensão da Lei Trabalhista ao campo, paradoxalmente, ao invés de atender ao homem do campo, criaram-lhe uma situação piorada, pois, de repente ele ficou sem trabalho, sem terra, sem seu rancho. Faltou mais cuidado e conhecimento para implantação das medidas que, infelizmente, vindo de cima sem observar a realidade local, causaram efeitos adversos. Não se observaram os benefícios da relação que havia entre o pequeno agricultor ou agregado com os fazendeiros e, por isso, hoje, não existe mais lugar para eles nas fazendas. O fazendeiro, quando necessário, contrata trabalhadores "boia-fria". Veio mais: a insensatez que foi construir complexos de casas populares para abrigar, na cidade, a população rural, alegando questões sociais, quando a assistência deveria ser levada a ele, no campo. Muitos foram atraídos pela fantasia, pelas luzes, pela ilusão, considerando, é claro, a dificuldade em que viviam, especialmente pela falta de água, em algumas regiões. Programas posteriores mostraram que o rumo era outro, a assistência foi chegando ao campo através de associações comunitárias e a abertura de poços tubulares comunitários (antes era coisa de política, só para o fazendeiro); energia elétrica, instalação de escolas, transporte... Para muitos já era tarde, o mal já havia sido feito.
As mudanças... tudo contribuiu para empurrar o homem para a cidade ao invés de levar o conforto e a assistência ao campo. Tanto fizeram que ele foi viver na cidade, com uma mão na frente e outra atrás. Deixou seu universo, escorraçado pelos fazendeiros que não podiam mais ter agregados ou premidos pelas grandes empresas de reflorestamentos ou carvoejamento, ou enganados por tutaméias de dinheiros por suas propriedades. Deixou seu universo por um mísero espaço de 50 m2 (casa popular) na cidade: sem quintal. Não tem onde criar uma galinha, o porquinho, plantar sua rocinha ou uma moita de cana. Não tem serviço. Não tem nada, senão a caridade da Igreja e de almas generosas. De repente seu mundo desmoronou de vez: ele perdeu a alegria e a dignidade, vai à rua, cabisbaixo, para pedir uma esmola – ele o forte e valente sertanejo. Seus filhos seguem-lhe no caminho da dor e humilhação – "uma esmola pelo amor de Deus". Suas filhas vendem o corpo: meninas, ainda crianças, começam a parir e parir filhos, para aumentar o tamanho da dor e da miséria. Um consolo, para uns, como se fosse uma loteria: o benefício do INSS, quando chega a idade. Ou ter de viver na dependência da cesta-básica, na humilhação de cadastramentos, quase sempre políticos, e enfrentando filas públicas, servido à execração ouvindo, humilhados: "vagabundos, porque não vão trabalhar".
Imagino as noites desse homem. Será como fica seu coração, quando vem uma lua cheia, quando chegam as quadras das folias? Para onde vai seu coração que era acostumado com os gemidos de uma viola ou rabeca; ele que cantava as coisas bonitas da vida e do sertão? O que teria, agora, para cantar e contar?
A vida do homem ainda está na natureza...

Adeus, Pajeú


O tempo chega para todos nós viventes. Tudo tem o seu tempo, ou há tempo para tudo, como ensinou São Paulo. Pois é, companheiro Pajeú, velho guardião do nosso mais do que amado Rio São Francisco. Ali, fincado no penedo, onde começou a história de nossa terra, você esteve em vigília por tantos anos. Ficou ali plantado, bem próximo das lisas e negras pedras onde chegava, em noites de lua cheia, e tomava assento, a bela Iara de cabelos verdes para cantar e encantar os guerreiros xacriabás, primeiros habitantes desta terra. Quantas vezes estive ao seu lado, admirando a sua permanência com a copa virada para as águas mansas, quase sempre, do nosso rio, pondo assunto, bem sobre a caverna do surubim de cabelo, quem sabe seu companheiro de história. Noutras eras você sentiu as águas bravas e barrentas do nosso rio banhando suas raízes firmemente encravadas nas rochas. Você e o rio tinham uma combinação, pois ele deixou você ali plantado anos após anos. Ali no penedo onde os índios botavam vigia para descobrir os cardumes de graúdos peixes, nos primórdios, quando fartura havia sem presença de tantos pescadores. Quantas vezes fiquei ali por perto, observando e admirando como você se agarrava às pedras, buscando terra bem no fundo das frestas para se manter firme e vivo, atravessando os anos. Fazendo sol ou chuva e você sempre ali soltando, uma vez por ano, as belas flores vermelhas. Vi meninos de escolas da cidade, em azáfama atividade, plantando mangueiras do lado de cima, onde terra farta havia. A alegria durava meio dia. Depois, os meninos voltavam às escolas e lá ficavam as mangueiras em terra fértil. Nenhuma delas resistiu e você, plantado no rochedo permanecia verde, vigiando o rio.
Um certo dia, eis que volto ao seu pouso para mais fotografias do meu rio fazer, sorvendo suas cores, sua placidez, e o mistério que ele tem em me cativar, como a todos barranqueiros. E o que vejo, meu Deus: você sem suas verdes folhas. O que foi isto, caro Pajeú? Então, assim de repente você resolve deixar o seu rio? Resolve nos deixar? Como vai ficar aquela paisagem sem a sua fragilidade\fortaleza? Sim, de aparência pequena, miúda, se lembrados os altaneiros angicos que no século passado ou mais que passado, forravam aquele sítio, daí ser a vila primeira Pedras dos Angicos. E bem que poderia ser, depois, Pedras dos Pajeús. Vi, com tristeza seus galhos nus, estendidos ao céu. Agradecia ao Pai por sua existência companheira do rio? Sem as folhas que os forravam não podia mais namorar as águas do rio, refletir nela o seu ficar para que elas levassem para o mar as suas lembranças. Só os galhos secos. Só. Daqui mais tempo nem mesmo o tronco restará.
Tenho um consolo, amigo Pajeú – bem ao lado do seu tronco, coisinha de nada desponta em folhas querendo subir. Seria seu filhote? Tomara que seja, pois assim, parte sua continuará na vigília do nosso rio.
Assim, vamos continuar, em pouco tempo, com o nosso Pajeú e o rio.

UM PASSEIO PELA ORLA DO SÃO FRANCISCO

A cidade de São Francisco foi abençoada por Deus que lhe deu dois belíssimos presentes: o Rio São Francisco e o majestoso pôr-do-sol.
O rio tem uma passagem especial pela cidade, de pontal a pontal, numa longa distância, descrevendo um suave “S”, abraçando o cais da cidade, lambendo as lisas pedras que guardaram, por séculos, portentosos angicos, que deram o nome primeiro à civilização ali plantada. Depois, muito depois, veio o atual nome – São Francisco, naturalmente vindo do rio, mas com resquícios da bondade e amor do santo que deu nome ao rio. Rio e cidade, coisa de muito amor ficado. Muitos registros foram feitos para contar tanta beleza. O mais famoso e carinhoso foi do grande Guimarães Rosa, no seu mais famoso romance: Grande Sertão: Veredas. Em uma página ele descreve com jeito carinhoso: “formosa cidade de São Francisco, a que o rio olha com mais amor”. Irra!

O pôr-do-sol. As palavras são poucas para descrever a beleza tanta da obra do Criador, renovada nas águas do rio, ali defronte da cidade, a cada tarde. As fotografias falam muito mais. Deixo para os olhos...




















A LUA CHEIA DE PRATA

O pôr-do-sol sempre tem sido nosso encanto barranqueiro. Coisa do entardecer. Assim, quando se punha o sol, vinha, do outro lado a lua, se fosse cheia. Aí ela passa imperando a noite, embalando sonhos de enamorados e arrancando suspiros de saudade dos que já a viveram em romances idos. Passa e passa, mas na madrugada, quase chegar do sol, quando dormir ela vai, também dorme a cidade. Assim, ela fica sem espectador ou admirador na hora amena e fresca do nascer do dia, quando risca caminho de prata no leito dorminhoco do rio.
Eu sempre quis registrar este momento, uma coisa ou outra atrapalhava. Chuva, nuvens, cervejas... Na última passagem de cheia, eu a peguei. Por uns instantes, na fria madrugada e no arrebol, tive companheiros naquele momento de elevo – visitantes de Montes Claros.
Não falo mais. Falam as fotos.


































sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL



O Natal é tido como a maior festa da cristandade. Deveria ser de toda a humanidade, sem distinção de credos, pela mensagem que encerra. Àqueles tidos como agnósticos ou de outras religiões, nem precisariam questionar se se tomar como fundamento o que significou Jesus para todos os homens, a importância de sua mensagem. Nem preciso é se prender ao fato de ser Ele, para os cristãos, o verdadeiro filho de Deus. Preciso é saber e lembrar sempre que Ele só quis ensinar uma coisa: o amor – “amai-vos uns aos outros”.
Quem pode ir contra esta mensagem? Certamente aqueles que não têm no Natal outra preocupação (se tiver) de festejar a data com regalo, por causa da tradição. Aí se incluirão aqueles que não querem a paz no mundo por causa da ambição, da sede de poder e de dinheiro; aqueles que são capazes de massacrar milhares e milhares de homens como se bichos fossem para não criar entraves em seu caminho. Estarão aqueles que fabricam armas, porque isto lhe dá dinheiro. Ora, qual é o único objetivo de uma arma de fogo? Poucos às têm como enfeite, como objeto de coleção. A grande maioria as tem para o fim que foram fabricadas: detonar projéteis, quase sempre no ser humano para atingir diversos motivos. Fabricar armas é permitido. Depois é a luta insana do governo em criar leis para proibir o seu uso; da polícia para apreendê-las nos recônditos dos lares desavisados ou nichos de bandidos. E os fabricantes com armas cada vez mais sofisticadas e poderosas, como ficam?
Impressionante é contemplar o resplendor daquele menino em humilde berço que veio para mudar, transformar totalmente a história da humanidade – e, passados 2010 anos continua provocando mudanças. Tem uma força miraculosa de tocar a sensibilidade, a alma, o coração do homem. Insensíveis existem, mas ainda que pecadores, não estão distante desta luz, pois Aquele menino veio para todos – para os bons e para os maus. Por isso o Natal tem o condão de acender, a cada ano, as esperanças de tempos melhores, de paz, de amor, de concórdia, no destino da humanidade.
Então, em mais de dois mil anos, continua-se em busca dessa luz, pois ela é a única verdade, o caminho, ainda que o mundo se apresente na contra-marcha do bem e da paz. Ainda que muitos homens mais pensam em si e que, por todos os meios querem se enriquecer causando a dor, a miséria, o sofrimento em muitos lares.
Uma estrela, mais uma vez, nos conduz a um pequeno berço, onde resplandece um menino, o bem da humanidade e, malgrado, tantas adversidades e decepções, com Ele possível é viver o amor, a paz e abrir um sorriso na direção de seus semelhantes, de poder acolhê-lo em seu coração em regozijo, alegria imensa, em rio caudal de muita paz. O Natal sempre será o Natal, a mais bela festa da humanidade!
FELIZ NATAL, amigos.
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Arte: Jonas Silva Ribeiro

terça-feira, 23 de novembro de 2010

MONTALVÂNIA: UM MERGULHO NO PASSADO

Começava o ano de 1952, quando uma cidade nasceu do ideal de um homem que descortinou novos horizontes em uma região lindeira com a Bahia, então sertão inóspito. Ele antecedeu em alguns anos, ao lançar a semente da nova civilização, à grande realização do Presidente Juscelino construindo Brasília. O que fez, no entanto, graças a sua inabalável determinação e as terras de sua fazenda que foram sendo fatiadas em lotes.
Ao plantar a sua cidade, iluminou-a com nomes de filósofos, compositores e escritores – lumes da civilização para inspirar jovens e habitantes da nova cidade para que tomassem gosto pelo saber. O futuro daria a resposta.
Antônio Lopo Montalvão, o homem, antes de tudo um sertanejo afeito à terra, mas com o pensamento vislumbrando o futuro, novos horizontes, querendo ir longe e até mesmo às estrelas. E se fez filósofo, espeólogo e, especialmente com a atenção voltada para a vida extraterrestre - buscando sinais de civilizações antigas ou de outras planetas nas cavernas da região. Assim ele fundou, levantando pedra a pedra, tijolo a tijolo, a cidade que iria ornar o extremo Norte-Mineiro, quase nas barrancas do Rio Carinhanha, divisa com a Bahia. Seria justo que ela ganhasse o seu nome, imortalizando o seu ideal: Montalvânia, a cidade de Montalvão.
A semente que plantou não foi apenas a cidade, mas o sentimento arraigado de amor à terra em cada habitante, revelando um desmedido amor às suas coisas. É o que se vê, hoje, quando conversa com pessoas da cidade que falam com tanto orgulho de suas realizações, de suas belezas naturais, destacando o encantamento pelo Rio Cochá que banha a cidade, daí criando até mesmo o carinhoso termo de tratamento dos locais como cochaninos.
Em um outeiro, dominando a cidade, onde Montalvão construiu uma casa para contemplar o nascer de sua cidade, os homens de hoje construíram um complexo cultural e histórico - nele um mirante encimado pela estátua de Cristo Rei que, às noites, brilha alcançando pontos da cidade. O complexo é ornado por um belíssimo jardim, cuidadosamente mantido. O local recebeu o nome muito significativo: Monte Lupino, outra referência ao fundador. É um marco visível da história, da cultura e do espírito de cidadania do povo de Montalvânia. Pois é, agora que voltei à Montalvânia, com a realização de uma reunião ordinária do CBHSF9, encontrando-a tão moderna, desenvolvida e bonita e, sobretudo, com um povo que se orgulha dela, mergulhei no passado, à minha adolescência. Dezembro de 1953. Montalvânia não era mais do que a fazenda de Montalvão e algumas casas (lembro-me apenas da dele). Eu estudava o curso normal na Escola Caio Martins de Esmeraldas, quando de lá partiu, no mês de setembro de 1953, uma Bandeira (doze jovens caiomartinianos preparados na Escola de Esmeraldas para a missão de desbravar o sertão) para fundar o Núcleo Colonial do Carinhanha, hoje Juvenília. Em dezembro a direção da Escola designou um grupo de jovens estudantes (meninos três deles - eu, Raimundo e Holmes - os outros mais velhos) para dar apoio à Bandeira. Viajamos de Januária a São Sebastião dos Poções na carroçaria de um caminhão que levava mercadoria para Cocos - Ba. De São Sebastião dos Poções à fazenda de Antônio Montalvão seguimos caminhando. Dura jornada.
Na fazenda fomos recebidos pelo proprietário que, no terreiro praticava tiro ao alvo, o que muito nos preocupou. Ele nos acolheu carinhosamente - “os filhos do Coronel Almeida” - dizia ele. No outro dia nos levou em seu jipe ao Núcleo onde permanecemos durante três meses trabalhando em setores diversos - a minha tarefa e do Raimundo era bater tijolos - os tijolos que levantariam as primeiras casas do Núcleo. Lembro-me que quando de uma visita do Coronel Almeida ao Núcleo, ali chegou, também, Antônio Montalvão e o que ficou na minha lembrança foi ele e o coronel fazendo numa disputa de natação no Rio Carinhanha - eu torci ardentemente pela vitória do Cel. Almeida que perdeu a disputa. Anos mais tarde, já como professor e diretor de Centros e Núcleos da Fundação Caio Martins, durante uma década passei por Montalvânia seguramente seis vezes por ano. De uma feita, quando caiu um intenso temporal na região, nosso carro ficou retido do outro lado da Grota do Paiol cuja ponte fora arrastada pela enchente. Deixamos o carro, atravessamos a água agarrados em uma grossa corda presa de barranco a barranco e fomos para Montalvânia onde ficamos dois dias à espera de socorro aéreo, o que não aconteceu. Teríamos de viajar por terra, então, mas a cidade estava ilhada, carros pequenos não podiam vencer o trecho de saída, numa baixada, totalmente tomado pela água de um córrego. A solução foi contratar um caminhão para transportar uma rural que fretamos para transpor a área alagada. Assim foi feito. Mais tarde, como diretor da escola Caio Martins de Esmeraldas estreitei mais ainda os laços com Montalvânia através de seus filhos e filhas que foram cursar naquela escola - Curso Técnico em Agropecuária e Magistério. Foram muitos deles, hoje cidadãos destacados, muitos de volta à região onde prestam serviços em várias áreas. Isto me alegra muito.
Agora, voltando à Montalvânia, mergulhei no passado e quando cheguei às margens do Cochá, vendo-o ainda tão bonito, tão farto de água, senti-me atravessando uma mata fechada, pisando em grosso tapete de folhas secas que estralavam à medida que avançava os passos, às vezes assustado com o agitar de asas de belos jacus e rezando para não encontrar com uma onça pelo caminho, tudo para chegar às margens do Cochá que ficava bem acima do Núcleo. Lá estava ele descendo suavemente totalmente coberto pelas copas de altaneiras árvores, nem uma nesga de luz e, por isso, suas águas tinham uma tonalidade escura.
Agora volto a encontrar o Cochá e com um propósito - juntar com o pessoal de Montalvânia, em especial com o vice-prefeito Horácio Sales e o escritor Almir Sabino que, em seus depoimentos no transcorrer da reunião do Comitê, revelaram a grande paixão pelo rio, para, também, lutar pela preservação dele. Dou-me, assim, muito feliz pelo reencontro. Mais ainda pela maneira tão carinhosa, hospitaleira e calorosa com que fomos recebidos pelos amigos de Montalvânia. Não tem jeito, é repetir, Exupéry - “Tu te tornas eternamente por aquilo que cativas”. Viu só, Montalvânia? Voltei e sou um dos seus, cativado que fui.




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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SÃO ROMÃO NINHO DE TRADIÇÃO



Neste ano, enfim, participei da tradicional festa de Nossa Senhora do Rosário em São Romão - muitas vezes ensaiada e agora realizada pelo compromisso firmado com a são-romanense Rita de Cássia, com um motivo especial - sua família se preparava com fé e amor para a festa que, neste ano, teria sua irmã Rosália como rainha. No sábado peguei a estrada tendo André e Guilherme como companheiros. Na chegada um imenso congestionamento na travessia do Rio São Francisco - tanta gente buscando São Romão. Fomos recebidos por duas ex-caiomartinianas: Darluce e Neinha. Outros lá estiveram, antes, mas como atrasamos muito, foram se preparar para a missa, pois já caía a tarde. Fomos instalados na bela e confortável casa de Darluce e Pedro (na fachada da casa afixada uma gentil faixa pelos meus queridos ex-alunos e amigos dando-me as boas-vindas na acolhedora São Romão. Emocionante), na moderna avenida Presidente Tancredo Neves - como São Romão tem crescido e se modernizado! Depois de um breve descanso, com tempo para agradável bate-papo acompanhamos Darluce para o primeiro ofício religioso de nossa participação - o encerramento da novena de Nossa do Rosário. Chegamos ao largo onde foi erguida a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Disseram-me que erguida por escravos que têm a Senhora do Rosário como padroeira. A igreja guarda, ainda, muito da arquitetura original, o que se vê em uma parte do telhado - uma parte de telhas e madeiramene antigos, as arcadas dividindo o interior em três naves e um belo altar onde, lá do alto, reina a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Fiquei sabendo que o altar original sofreu um sinistro. A missa foi celebrada pelo padre Arimatéia que passou por São Francisco, com participação de um belíssimo e afinado coral. No final da missa a coroação de Nossa Senhora por um grupo de anjinhos com direito ao acompanhamento da banda de música Sete de Setembro com o maestro Mário Torres (Marão).

O CORTEJO DO REI

Veio uma parte muito esperada e emocionante: a coroação da rainha e do rei da festa (Cosmo e Rosália), sob muitos aplausos e vivas. Seguiu-se, depois, o cortejo levando o rei à sua casa. Muita gente e a banda animando a caminhada. Na entrada da casa do rei a guarda paramentada com muita distinção e dignidade, investida na alta autoridade de guardiães da tradição de Nossa Senhora do Rosário. Uma enorme tenda no quintal da casa com duas mesas cobertas fartamente de diversos alimentos. Numa tomaram assento a guarda do rei e, na outra a banda de música que executava de minutos em minutos variados números musicais - dos dobrados à música popular, tudo com muita graça e harmonia. Alcólitos se ocupavam de servir a multidão levando balaios e mais balaios de quitandas acondicionadas em sacolas que eram ali consumidas ou levadas para casa. Fartura satisfazendo a todos. Ficamos ali, eu André e Guilherme vivendo aquele momento mágico.

ALVORADA

Fomos dormir bem tarde, mas isso não impediu que às 4h Darluce desse o primeiro aviso: a alvorada. Levantei-me - o que não fizeram André e Guilherme. Cedo estava, por isso voltei para mais um cochilo. Às 5 h não teve jeito. Lá fomos, eu e Darluce, na fresca manhã sanromanense com o céu ainda apinhado de estrela, para a casa do rei, onde teria início a alvorada puxada pela banda 7 de Setembro. Na grande praça uma multidão ainda participava do show que varara a noite com a apresentação de diversas bandas - comemorava-se o aniversário da cidade, concomitantemente à festa religiosa. Na última banda, vários músicos da banda Sete de Setembro e, por isso, a alvorada ficou prejudicada.
Chamei Guilherme e descemos para a orla do rio para esperar os Caboclinhos que, segundo a tradição, desceriam o rio embarcados em uma lancha. Ali, por bom tempo, contemplamos a beleza do Rio São francisco beijando os barrancos e a ilha Guariba, palco de importantes capítulos da história de São Romão. A chegada dos caboclos estava atrasada e tinha motivo - a lancha estava encalhada em um banco de areia no meio do rio. Enfim ela se aproximou do cais, dela desceram os caboclinhos. O guia à frente puxando duas alas de guerreiros enfeitados com belos cocás e tangas de buriti. Passadas firmes, elegantes, ritmadas e a vibrante música puxada pelo cacique e respondida pelos demais guerreiros.A interessante e muito bonita a coreografia, no ir e vir, como se quisessem buscar o futuro, mas com a necessidade de resgatar o passado. Eles tomaram conta da avenida com sua dança frenética e o canto enchendo o ar. Sumiram a na direção da casa do rei.
Eu e o Guilherme fomos para a casa da rainha, pois por lá chegava a turma do congado comandada pelo Melé, uma figura fantástica, muito pequeno, mas cheio de energia, alegria e simpatia. Tomamos café com eles e, é claro, saboreamos tradicional paçoca de carne seca. Depois, como um bando de codornas espantadas com a chegada do homem, sairam eles depresa, dançando e cantando, avenida acima - foram se juntar aos caboclinhos para conduzir o rei ao palácio da rainha.
Minutos depois, desceu o cortejo: caboclinhos e congado à frente, um espetáculo de rara beleza, muita graça. Com eles mergulhamos no passado, trazendo a história das gentes de São Romão, desde os índios que habitaram a ilha Guariba, aos negros que levantaram a Igreja Nossa Senhora do Rosário. Uma beleza o movimento deles, como onda do São Francisco tocadas pelo vento. Um grupo avançava contra o outro e se entrelaçavam. Difícil imaginar se daria certo, se não ficariam enroscados - os caboclinhos batendo as preacas em ritmo gostoso, firme, cadenciado e os congadeiros acompanhando a batida dos pandeiros jogando o corpo de um lado para o outro com graça. Misturam-se, de repente. E do que poderia parecer um tumulto avultavam-se os cantos definidos de cada grupo. Alternavam-se nas posições - ora um junto ao séquito do rei, ora o outro. O rei descia tão soberano ao lado do pajem ostentando enorme guarda-sol. Os dois protegidos por uma guarda formada por vários homens paramentados, circunspectos, formando um quadrado com uma armação colorida. Atrás, vibrando os mais ardentes e belos dobrados, a Banda Sete de Setembro, então completa e em uniforme de gala. O cortejo chegou à casa (palácio) da rainha que veio à porta receber o rei, acompanhada de sua inseparável e emocionada mucana e cercada pela família real, tendo à frente a rainha mãe, dona Terezinha, tão empolgada com aquele momento incomum e privilegiado da festa religiosa e cultural de São Romão. Recebeu o rei e todos aplaudiram. A banda festejou com dobrados. Dançaram mais vibrantes os caboclos e congadeiros. A rainha foi levada ao cercado e se juntou ao rei e, dali, seguiram para a igreja Nossa Senhora do Rosário enchendo as estreitas e históricas ruas de São Romão de cores, música e um quê de mistério de coisas guardadas e passadas pelo tempo. O cortejo deslizou entre casario antigo - é a parte mais velha da bela São Romão. Passou pela Igreja do Divino Espírito Santo (matriz), pelo casarão que serviu como cadeia, no passado, e hoje, museu; passou, ainda, pela tradicional escola Afonso Arinos, berço da cultura local e, enfim, chegou à igreja, onde rei e rainha entraram triunfalmente sob aplausos da multidão de fiéis.
Depois do ofício religioso, a recepção na casa da rainha. Uma ala da avenida foi fechada e forrada de mesas para que todos pudessem participar da grandiosa festa regada por cem caixas de cerveja - “apenas” - e uma infinidade de pratos. Afinal, foi um ano de preparação.
Uma festa que fica guardada nos olhos e no coração para sempre.


OS CABOCLINHOS

Escrever sobre os caboclinhos nunca terá a mesma emoção e sensação de que acompanhar o grupo em atividade. Dias atrás eu tive a oportunidade de acompanhar, pela primeira vez, o desempenho do grupo de caboclinhos de São Romão, famoso em toda Minas Gerais, por sua tradição.
Não tive como conversar com o chefe dos caboclinhos, pois o meu tempo foi curto e eles estavam em plena atividade juntando-se ao congado e banda de música Sete de Setembro para conduzirem o rei e a rainha da festa de Nossa Senhora do Rosário à igreja para a celebração da Missa Festiva, encerrando as atividades em homenagem à santa. Não fiquei sabendo como surgiu o folguedo em São Romão, por isso, nesta página vou mesclar o que ensinam alguns renomados mestres a respeito e o que senti nas horas que passei com o grupo.
Diz o mestre Câmara Cascudo sobre os caboclinhos - que ele denomina como cabocolinhos - “trata-se de grupo fantasiado de índios que percorrem as ruas das cidades do Nordeste do Brasil. Com danças dramatizadas eles representam as lutas entre cabocolinhos e os brancos. Diz mais o mestre: “embora pareçam danças de origem ou aculturação ameríndia, na realidade são de influência africana, correspondendo ao Auto dos Congos, verdadeiros Reisados que, juntamente com o Auto dos Cabocolinhos, deram origem ao Guerreiro”.
Para Ariano Suassuna, o “caboclinho é a expressão da genialidade e miscigenação do povo brasileiro”
Existem outros entendimentos, como o do padre Fernão Cardim no livro Tratado e Terra da Gente Brasil que registrou, pela primeira vez, o folguedo, isto em 1584, dando-o como de origem indígena. Há sentido, pois caboclo significa a mistura de índio com branco e caboclinhos são filhos dos caboclos.
A beleza do folguedo está na coreografia, muito rica, com passos que exigem desenvoltura e excelente forma física, pois dançam e cantam por horas a fio percorrendo as ruas da cidade. A música é leve e ligeira, com os caboclinhos provocando constante som - muito bem ritmado, o estalido seco das preacas - conjunto de arco e flecha (a flecha tem uma saliência na base e a outra parte afulinada e, assim quando ela é arremessada passa quase toda por um orifício aberto no arco, retendo-se no final, com forte estalido, quando a saliência da base vai de encontro ao orifício). O cacique, à frente do grupo vai puxando versos ou loas que são repetidos pelos demais caboclinhos - em São Romão, quando acompanhei o grupo, os versos se referiam ao rei e à rainha do Rosário.
Causou-me muita emoção e alegria foi ver a presença de muitos jovens e crianças compondo o grupo. Isso é garantia do folguedo em São Romão, o que, certamente, já vem de longas eras. Bonito, precioso e emocionante, é o que se pode dizer sobre o grupo de Caboclinhos de São Romão.
Vou aguardar informações que me foram prometidas por minha amiga Darluce, da sua pesquisa de mestrado, para dar mais informações sobre tão significativo trabalho cultural da bela São Romão.

CONGADO EM SÃO ROMÃO

O congado é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana adotada em algumas regiões do Brasil. Segundo o mestre Saul Martins o congado, na raia dos folguedos, é a maior ocorrência folclórica em Minas. É do mestre a descrição a seguir: “A festa é de devoção, um ritual sagrado, embora o profano a ela se associe. Entra-se no Ciclo do Rosário no princípio de agosto, mas comemora-se 7 de outubro o dia da padroeira. Abrange, pois, três meses seguidos. Ainda que frequentes, registram-se manifestações fora desse trimestre, como se vê em Serro - final de junho - e em Conceição do Mato Dentro - começo de janeiro para citar só dois exemplos.

Nesse evento, consideram-se quatro partes:
1) Reinado, que se compõe de rei e rainha congos, princesa Isabel, juízes e juízas, dignitários e mucamas, entre outros. De sua constituição devem participar os membros de crença. O papel do reinado é unir as diferentes guardas em um mesmo sentimento de fé em Nossa Senhora do Rosário e manter coesos os de cor. Sua origem se explica principalmente com a fixação de lembranças de época faustosa da rainha Ginga de Angola e de Chico Rei, o lendário animador de Vila Rica. O registro mais antigo da ocorrência em Minas pertence a André João Antonil, que aqui esteve de 1705 a 1706. Em sua obra, publicada em 1711, notícia dessas festas.
2) Embaixadas, que se traduzem em homenagem ou em destemor e valentia. E parte dramática, representada, e inclui a rezinga ou luta de espada entre embaixadores.
3) Guardas, que são em número de sete, menos o candomblé. Cada uma destas possui vestuário próprio e autonomia - é uma unidade rítmica e coreográfica. Segundo o lugar, em vez de guarda, que é a designação mais comum, chamam-lhe a corte (ô), banda, terno, batalhão.
A guarda não terá menos de doze de varsais. Há-as com trinta, quarenta ou mais. Varsal é cada um dos figurantes não graduados de qualquer guarda de Nossa Senhora do Rosário. A palavra, talvez, seja modificação prosódica de vassalo Curioso: em Alencar, Para, ela assume a forma valsar. Cada guarda tem função específica no Congado, bem definida.
4) Todos os figurantes, quer sejam membros do reinado, das embaixadas ou das guardas, pertencem à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, instituição religiosa que se fundou em Minas Gerais desde os albores do século XVIII, inspirada nas Corporações de Ofício da Idade Média.

Em São Romão o congado é tradicional, está intimamente ligado à festa do Rosário, com inspiração na igreja erguida em honra à Nossa Senhora do Rosário, por negros, segundo os locais. Localizado em um largo, no final de uma das mais antigas ruas da cidade, no limite urbano, apesar de ser uma construção simples, torna-se imponente por sua história e fervor religioso do povo, sempre puxado pelo congado.Deve-se ressaltar, no congado de São Romão, a liderança de Melé que esbanja energia com sua baixa estatura, e, ainda, a presença de muitas crianças, o que garante que a tradição será mantida.
De quando vem o congado de São Romão, passando de pai para filho? É o que faz a sua bela história, para alegria do povo de São Romão e todos os amantes do folclore. É, sem dúvida, um registro histórico e cultural.



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VISTAS DE SÃO ROMÃO



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Fotos: Guilherme e João Naves
Diagramação: Jonas
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