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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

RIO SÃO FRANCISCO DE 4 DE OUTUBRO DE 1501 A 2010

O amor é imenso. É uma ligação tão antiga, tão remota. São Francisco, a cidade, nasceu e se fez tão bela, por causa do rio que a abraça e lhe dá o mais belo pôr-do sol do Vale. Motivos para festejar o 509º aniversário do descobrimento do rio.
Um americano criticou os brancos que queriam comprar suas terras dizendo que eles não tinham respeito por ela que era sua mãe, que cospiam nela. O que fazem os homens com o rio, hoje - e ao longo de uns anos para cá -é pior, jogam suas sobras nele.
Neste ano, mais uma vez o rio está esverdeado. Perdeu sua cor cristalina, quase azul suave. O grosso lodo vem chegando e, depois dele, o mau cheiro...Faltou chuva. Faltaram as águas. Tomado por bancos de areia, a pouca água serpenteia gargantas secas.
A morte ronda o rio e, com ele e por ele a vida barranqueira. Um vídeo nos chegou pela internet mostrando a descarga fétida de grosso e negro esgoto no rio, a montante da nossa São Francisco. Um crime descarado (no site www.youtube.com, digitar Contaminação Rio São Francisco).
Ainda assim, caro rio, nosso amado rio, ainda rendemos-lhe o nosso tributo.
E vamos lutar por você, sempre.




Tributo ao Rio São Francisco

Meu Rio São Francisco,
Rio do santinho irmão das águas,
Do sol, da lua, das flores e dos humildes.
Santinho dos barranqueiros
Bem que me lembro de suas águas claras
Trazendo saudades da Zagaia
Lá dos píncaros da Canastra
E lembranças do cerrado
Das águas brotadas na locas de buritis
Nas veredas belas como o Éden
Com jeito do dedo de Deus passado.
Lembro-me de suas águas claras e mansas
Correndo na sombra de matas fechadas
A lamber com doçura o capim braço-duro
Que forrava e segurava o barranco
E ficava a assuntar as galhas da ingazeira
Agitadas com suavidade cantando na manhã.
Levantado o irmão sol
Elas refletiam as flores vermelhas do pajeú.
Eu bem me lembro de suas águas claras
Apinhadas de ariscas piabinhas
Beliscadeiras dos pés das lavadeiras
Que nas pedras lisas batiam roupa e contavam causos.
E a espuma branca beijando as praias
Banhando os pés de melancia da coroa
De onde saía o doce fruto desejo do mestre Saul.
Meu rio São Francisco
Berço da Iara bela de olhos e cabelos verdes
Reino do surubim de cabelo, guardião do palácio encantado
Rio que esconde nos esconsos profundos
O caboclo d´água, compadre dos pescadores.
Lembro-me do rio das águas fartas e profundas
Por onde deslizavam as barcaças
Levando fincada na proa o mistério
A garantia da boa viagem – a carranca.
Rio caminho dos belos vapores
Apitando saudades em cada porto.

Rio São Francisco caminho da nossa vida
Por ele nasceu nossa civilização.
Que nele cresceu e ainda vive
Rio São Francisco onde deita nossa alma
Assim como inspirado cantou o mestre Saul.
Lendas, mitos, histórias, vida vivida
O nosso São Francisco. A nossa vida



Hoje, querido rio,
O que fizeram com seu corpo?
O que fizeram com suas águas?
Você agoniza, a gente sente.
As águas claras, mansas e doces
Foram cobertas de espesso verde.
Não que seja feio o verde,
Mas não este verde que cobre seu leito:
Grosso como uma gosma
Fétido como carniça intolerável.
Nauseabundo cheiro da morte
Que inunda os lares barranqueiros.
Morte aos peixes! Decretaram.
E os peixes morreram aos milhares
Surubins erados de tamanho descomunal
Só vistos nas outroras em grandes pescarias.
Foram retirados de suas cavernas para morrer.
Dourados, sem brilho, boiando na água negra,
Curimatã e até mesmo o pacomã.
A morte corre em suas águas
Silenciosa e feia, onde tudo era vida e belo.



Noraldino Lima, Manoel Ambrósio, Elísio Horbilon
De onde estejam, olhando rio, acudam-nos.
Como cantar o Rio e o barranqueiro?
Qual história nos resta?
Saul Martins, Domingos Diniz, Ivo das Chagas,
Mestre Minervino, estamos emudecidos.
Não se canta o lundu nem dança o quatro
O Rio Abaixo desafinou.
A morte nos surpreende.

São Francisco, querido São Francisco
Rio do Santinho das águas.
O que podemos lhe dar no seu aniversário?
- Ironia, rio, falar em aniversário
Se o descobrindo o homem escreveu seu epitáfio.
O que podemos passar às futuras gerações?
E tem mais ironia, Rio. E que ironia:
E ainda assim, com tanto desprezo,
Querem levar a lama negra, o lodo verde,
A fétida água que resta, para o Nordeste.
Aos pobres irmãos nordestinos esta herança.



Hoje, o barranqueiro não pode pôr a mão em suas águas.
Não pode, ao modo antigo, tomar água no cucuruco do chapéu
Ou na concha das mãos
Se o fizer, é advertido: pode adoecer ou morrer.
Diz o governo que sua água natural é imprópria para consumir
Até para os bichos, Rio. Até para eles.
Meu rio, imagina só:
O barranqueiro só pode tomar sua água se tratada.
Então você está mesmo doente e só dão o atestado.
Nós lamentamos e choramos.

Onde temos nossa alma
Vamos consumir o nosso corpo.
Vamos buscar longe Castro Alves para evocar de novo:
Deus, ó Deus, onde estais que não nos acode e salva
Nós morremos. Nosso rio morre
E os homens senhores de hoje vergateam nossa alma
Mudos se fazem. Nada vêem.
Rio São Francisco, perdão
E uma lágrima rola, vinda da alma,
Você não merece tanto desprezo
Porque tanto nos dá – a vida.

04.10.2007




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terça-feira, 14 de setembro de 2010

ANIVERSÁRIO DE KEU

Preciso é um registro mais amplo da bonita festa que reuniu a família e um grande número de amigos de Keu na Pousada Peixe-Vivo, no sábado 28, para comemorar mais um aniversário dela.
Foi tudo muito espontâneo, bonito, cheio de cores, alegria e música, muita música, como ela tanto gosta e transpira. Começou com os amigos que vieram especialmente de Belo Horizonte, em ônibus especial. Duplas de violeiros e cantores solo. E teve uma apresentação muito especial dos Mensageiros da Emoção (Beatriz, Zeninha, Guilherme, André, Wendel e eu). Na sua forma habitual de se apresentar, os Mensageiros mesclam texto enfocando a vida do homenageado, no caso Keu, com músicas que fizeram (e fazem) parte de sua vida.

Foi tudo tão bonito e emocionante, com direito às lágrimas doces e felizes. Por isso, resolvi trazer para está página o texto escrito e apresentado. Complementando, algumas fotos do evento. É para aqueles que gostam muito de Keu e não puderam vir a São Francisco, aproveitando para deitar os olhos no pôr-do-sol e nas serenas águas do rio.

Mensageiros da Emoção

(Entrada com adaptação de música de Vinícius e Toquinho: Keu, não anda só; só anda em boa companhia...)



Não muito tempo foi passado, porque quando se cria laços as distâncias são encurtadas. Assim, em certo dia aqui chegou uma família, a Oliveira. Logo se destacou o guia, Zé da Pinga e, com ele dona Maria – duas criaturas de Deus de tão dóceis, amigos e felizes. Dois rapazes: Ailton e Valmir e duas meninas/moças, Milsa e, ela Creuza, a nossa querida de todos, Keu. Que bela era a sua alegria e do gostar logo da cidade e muito mais do seu rio o nosso São Francisco com suas belas águas.

MÚSICA: “As águas descem buscando o mar e o São Francisco vai descansar...
A menina/moça foi se entrosando e logo-logo seus olhos e o pulsar de sua sensibilidade bateram na Tia Cecy e passando por aquela generosa educadora mergulhou na alegria da meninada da Escolinha do Bom Menino e, daí a simbiose artística aconteceu. Era grande seu carinho por aquela Escolinha, o xodó de São Francisco naquelas décadas. Que prazer e orgulho de ensinar a meninada soltar a alma gentil cantando.

MÚSICA JOÃO DE BARRO – do tempo da Escolinha do Bom Menino

Keu chegou à escola Caio Martins através de várias portas – uma delas foi a música, encantada que era com o coral da escola. Mas teve passagem sentimental muito forte também, em cor grená – era a rainha do Estrela, time nascido na escola. Ela liderava o fã clube de jovens. Era o Estrela o time da juventude e, em seus jogos, ela vestia a camisa grená, amarrava na cabeça uma fita branca com uma estrelinha também grená e, na arquibancada, puxava o hino do clube. Amizade profunda porque nascida no sentimento da alma, com a música. E ela cantava todas as canções do coral com seu amigo Dirceu puxando no violão.

POUT POURRI – GRAÚNA, EMA E MINHA TERRA.

Keu parecia repetir duas belas lições da literatura internacional. Uma do filósofo Gibran, descrevendo a amizade como a onda que vem do alto mar, beija a praia e volta levando as saudades da areia e se faz um só corpo. Outra do Pequeno Príncipe de Exupéry – Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Eta raposa sabida. Meio a esse entrelaçamento eis que ocorre uma dádiva na vida de Keu, a vinda de dois grandes e preciosos presentes para enriquecer mais ainda sua vida – as filhas Mariana e Daniela. O que melhor que os filhos? E a vida foi continuando... continuando. Então, Keu, na sua vivência, foi formando laços, mais laços, fortes liames de teia que não se rompem. E fazia de sua vida e de seus amigos, um de bem permanente, somando alegria e muito amor no coração e isto acabava despejando em noites de luar – e até sem lua – em memoráveis serenatas.

LINDA FLOR E HOJE QUE A NOITE ESTÁ CALMA.

Não ficava só na alegria. Ela tinha também o que fazer, oxente! Aí lhe tocou o tino comercial, talvez puxado do seu Zé. Como tinha o gosto pela música, do mesmo modo os seus manos, deu de presente para São Francisco um mimo para alegrar as noites com arte diversa – o Cantigas Bar. Que maravilha os saraus de artistas da terra e convidados, alegrando o público. Keu, naquele mundo encantado quase sempre se esquecia do seu lado empresarial e assumia o microfone desfilando belas e inspiradas canções com sua voz morna e romântica.

MÚSICA: SANDUICHE DE GENTE

A vida tem seu dinamismo, natural mutação comum aos bichos viventes. Vêm as mudanças. Umas boas, outras não. A não boa, de fazer correr água dos olhos, foi acompanhar o seu aceno de adeus. Adeus, rio; adeus, casario antigo; adeus serestas ... até logo amigos E aí veio o choro comprido, explodido aos cântaros. Quanta gente chorou já sentindo a saudade antecipada pela grande amiga Keu.. Ah! Doeu... como doeu!

MÚSICAS: CUITELINHO/ CHORAVA TODO MUNDO, MAS AGORA NINGUÉM CHORA MAIS

Agora, ninguém chora mais...

Ora, gente. Logo se viu e no peito sentiu, que tudo não passou de questão física, do dia a dia, porque a amizade mais profunda, o que se tornou, na turma toda coisa de coração uno, fez com que Keu fosse permanência. Ela nunca foi. Ficou. É nossa. Ninguém chora mais. Festeja. A cada tempinho temos motivos para deixar rebentar a alegria, como rebentam as águas do São Francisco fazendo canção nas pedras do cais. E então tudo se repete. Vira festa, rodadas de viola varando noite, comendo peixe frito e tomando cerveja.

MÚSICA: SAPATO VELHO

Senhoras e senhores, meninos e meninas. Eia Rio São Francisco. Assunta. Quieto aí angico branco sombreiro e testemunha de nossa alegria. Agora, aqui em nosso palco coração, chamamos a razão de nosso querer mor.

O ANIVERSÁRIO DE KEU

MÚSICA: FLOR MINHA FLOR (do Grupo Galpão)

Keu, viu só o que você faz no coração da gente? Mira só o brilho dos nossos olhos, o encantamento de nossas vozes e o bater de nossos corações. Viu o que se constrói com a força, a suavidade, a doçura e a beleza da amizade? Vamos repetir, mais uma vez, o Pequeno Príncipe para lembrar e mostrar quanta gente você cativou e, por isso, com eles tem compromisso de amizade e amor eterno.

Oiá aí, gente, neste momento chegamos ao final desta função de alegria e amor. Preciso é que isso aconteça com maior emoção ainda. Então, vamos todos, todos juntos cantar e mostrar, com as cordas do nosso coração que,

KEU NÃO ANDA SÓ!






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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

VISITA A UM PARAÍSO VIRGINAL



O Comitê da Bacia Hidrográfica SF9 – Afluentes Mineiros do Médio São Francisco reuniu-se, no dia 31 de agosto no município de Bonito de Minas. Os conselheiros tiveram uma calorosa acolhida no plenário da Câmara Municipal, quando foram saudados pelo prefeito municipal José Raimundo Viana na abertura dos trabalhos e pela vice-prefeita Vânia Carneiro. O plenário estava repleto com o público formado por presidentes de entidades locais e estudantes, somando com os conselheiros na discussão de importantes temas ligados aos recursos hídricos e à revitalização do Rio São Francisco.
No segundo momento, foi oferecido um especial almoço aos conselheiros, tendo como prato principal um dourado assado com arroz de barriga, da arte culinária de Miguel - iguaria de primeira, mesmo sabendo que a especialidade local, na culinária, é a paçoca de carne seca. O almoço foi servido na secretaria municipal de Educação, estando à frente o próprio secretário municipal de Educação.
Terceiro momento: visita ao balneário do Catulé. Se todos estavam felizes com a recepção que fora feita ao CBHSF9, ali, às margens do Catulé, os conselheiros se sentiram muito melhor à beira de um paraíso. O rio vem do alto, nascido em diversas locas aos pés de buritis, descendo dali abrindo caminho entre pedras, deslizando-se sobre lajes acinzentadas, rolando seixos brilhantes, fazendo dançar algas verdes e vermelhas, folhagens de samambaias e beijando, aqui e acolá, troncos de buritis. É uma pena que às imagens não foi possível juntar a cantiga do rio. A mais pura canção da natureza. Vejam as fotos solfejando a canção Chuá, chuá – vai dar para sentir mais o encanto.
O Catulé se encontra em estado virginal, com fartas águas numa estação do ano (agosto/setembro) em que tantas outras fontes da região estão secas e que, cortando o cerrado não têm os olhos a graça do verde. Contemple-se ali uma visão do éden em um mundo de sequidão.
Bonito de Minas nos dá um bonito exemplo de como conservar, preservar e respeitar a natureza. O que se faz no mundo, destruindo a Terra, muitas vezes por ganância, tem ali um modelo de uma vida mais saudável e de boa relação entre o homem e a natureza. É possível sim alcançar o desenvolvimento sem destruir o meio ambiente.
Bonito de Minas é bonito de se ver... e ficar!


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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DIA INTERNACIONAL DO FOLCLORE


A primeira lembrança é a do inglês William John Thons que no dia 22 de agosto de 1846 fez o primeiro enunciado do vocábulo folclore. Depois, navegando pelas mansas águas do Rio São Francisco, vamos içar a alma do mestre Saul Martins que, por certo, ali foi repousar depois de seu encantamento. Era ele o mestre do nosso folclore, o que mostrou as belezas e grandezas da nossa cultura revelando a alma de nossa gente com tanto zelo. Ele, que ao lado do mestre Aires da Mata Machado e outros fundaram a Comissão Mineira de Folclore, instalada em 19 de fevereiro de 1948. Deixando as barrancas do rio, avançamos pelo córrego Angical até nos desviar para as barrancas secas da grota do Surucucu, encontrando uma humilde casinha fincada no tauá, numa suave lombada sob a sombra de solitário pé de xixá entrelaçado à copa de um umbuzeiro. Ali encontramos a luminosidade da figura do mestre Minervino acertando as curvas de uma viola ou mimo de uma rabeca, ajustando as folhas finas de imburanas e, depois do ofício completo, os solos de doces cantigas de ninar sertão.
Subindo o rio, pela estrada amarela, poeirenta, ou pelo alto das copas de aroeiras, tamboris e ipês, ganhamos a cidade fazendo pouso nas ruas onde ressoam caixas e violas e todos instrumentos do terno de folia de Adão Barbeiro. Eia! Tem folião saudando lapinha. Tem folião saudando São Pedro e Adão Barbeiro puxando o grupo com serenidade, com seu velho escudeiro, de olhar baixo e alma nas baquetas, o caixeiro João Pomba Triste. A viola repica acordes e neles repassa Adão Barbeiro que artista não morre. Encanta-se e fica por aí assistindo o mundo passar.
Ganhando o alto esbarramos na praça da Igreja Nossa Senhora Aparecida. Na esquina, com a rua São Romão, uma casa sossegada sem aparência de ser diferente das outras, mas no fundo, há de se lembrar do grande mestre Nego de Venança briquitando (como dizia o velho baiano Zé Domingos, do Campo de Sementes e Caio Martins) com instrumentos de vida nova – violas e rabecas, ou ressuscitando aqueles que ali chegavam, em sua oficina, aos cacarecos.
Vamos para as bandas do Sobradinho. Uma ruazinha nova, perto da capela. Uma pequena oficina montada para um mestre – Joaquim Goiabeira. Ali buscavam foliões de todos quadrantes as caixas de tamanhos variadas para empreenderem suas jornadas com os ternos de folias. Joaquim fabricava cada caixa com arte como se esculpisse uma obra de arte – e o era.
Pois é, neste Dia 22, Dia Internacional do Folclore, nossa comunidade rende homenagens aos nossos grandes mestres. Homens que com toda simplicidade (nisto se inclui o mestre Saul que apesar do vasto saber, era simples no contar, no transmitir, no sentir) enriqueceram a nossa cultura, deram uma dimensão especial ao nosso Folclore. Homens que traduziram, com sua arte, a nossa alma.




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quarta-feira, 28 de julho de 2010

FLORES DE JULHO


O mês de agosto é prenúncio da Primavera. A natureza ainda está em dormência, em estágio vegetativo. Grande parte das árvores está sem as folhas e aquelas que as suportam tem-nas amarronzadas, retorcidas, ressequidas, pedindo água. Flores são raras, tão raras. Eis que, sem dar aviso, porque está em seu ciclo, algumas espécies vão se adiantando nas vestimentas primaveris – querem ser as adiantadas da estação e nisto acabam se dando bem porque são as únicas distinguidas, mais notadas, no contraste vivaz com o triste cinzento. Tenho visto, por andanças pelo cerrado, em todas as épocas do ano, como vão acontecendo as mudanças na natureza e sempre me surpreendendo. Aqui, na orla do querido São Francisco, acompanho atento – ainda que em caminhar distraído nas manhãs de julho – sensíveis mudanças. Sempre estou de olho no tamboril, no ano todo. Agora, ainda no final de julho, está desfolhado sustentando apenas as sementes que esperam o momento para cair. Nada nadinha de verde senão ramos de teimosas ervas de passarinho. Faço fotos e mais fotos delas para que depois outros possam ver, admirar e acreditar no milagre da natureza no seu trabalho renovador milenar. E nas caminhadas vou me surpreendendo com as adiantadas. Acredito que algumas plantas são mais sensíveis às umidades distantes que possam passar pelo sub-solo, ainda que nada a sinalize no céu, limpo de nuvens. Algum veio de água deve furar bloqueios de pedras, barro ou tauá e vai procurando caminhos e, com isso saciando raízes mais profundas. Então, é o que se vê, o pajeú, árvore de beira de rio, sempre ali pregada nas barrancas, testemunha de grandes enchentes e terríveis secas, se vestindo de florada. Primeiro buquês verdes que logo vão se matizando passando para o vermelho. Verde-e-vermelho, flores às pencas cobrindo toda a fronde das árvores. É um tapete aéreo que vai refletir seu colorido nas águas do rio, nesta época tão cristalinas. Um pouco afastadas das barrancas, mas ali na orla, a caraibinha se arrebenta em flores brancas, mimosas e docemente perfumadas. O caminheiro ao dela se aproximar, ainda que sem assuntar, sente o arômata, passa e leva aquela lufada suave, doce, por um bom trecho de estrada. Soltas aqui e acolá, mais próximas do gradil que separa a barranca da avenida, sobem moitas de algodão manso. É uma plantinha tão comum na catanduva, nas matas secas e muito mais em terrenos de pedreiras e de solos áridos, de pouca água, que poucos dão ligança para ela, que não tem serventia. A única que sei é a de servir de brinquedo para as crianças explodindo, com os dedos, seus botões brancos, em formas de esferas ocas. E o que têm elas, então, para merecer uma atenção, agora? As flores. Tão delicadas e desenhadas flores, formam pequenos buquês e quando se abrem aprecia-se a engenhosidade de seus traços coloridos. E ainda não chegamos ao mês de agosto que é prenúncio da primavera. Aprecio tanto esta época de secura, de tristeza nas plantas, de vestimenta plúmbea, um mundo gris de raridade verdes. Árvores e mais árvores com galhos secos estendidos ao céu, sem uma folha sequer como se pedisse água, água, meu Pai. É preciso tanta tristeza assim para sentir o rebentar da vida que nos oferece, com toda pujança, a natureza, quando chegam as chuvas de broto de agosto e, depois a Primavera. É preciso o cinza triste para festejar o verde lustroso, e o colorido de tantas e tantas flores que se abrem por toda parte. Lá embaixo, cumprindo sua sina, vai o São Francisco deslizando mansamente. Agora mais mansamente do que nunca, tão carente de água, sufocado por tanta areia, mas sereno, bonito, tão bonito. Alheio à maldade do homem, o depredador voraz de cerrado, entumpidor de veredas e matador de nascentes. Com tanto descaso e agressão, a natureza resiste – ainda resiste – e o São Francisco cumpre sua sina e, os nossos olhos, a cada dia fascina.
Sim, tenho tanta inveja do tamboril porque não posso imitá-lo. De maio a julho ele se despede das folhas, se mostra seco, enrugado, cascas eriçadas, cinzentas, um quase morto. Vem chegando a primavera e ele vai soltando pequenas, pequeninas folhas verdes – uma duas, outras e tantas outras. No começo elas se mostram quase transparentes, translúcidas de quase poder vará-las com o olhar. Depois se tornam mais aglomeradas, mais densas e cobrem, como um manto verde, brilhante e viçoso, a fronde da árvore. É vida renascida, revigorada, pujante. Eu, a cada inverno, vou perdendo o vigor e viço físico que não se revigoram com a chegada da Primavera... vou me acinzentando, descendo o rio abaixo em meu inverno sem volta.

sábado, 17 de julho de 2010

ADEUS, MEU RIO SÃO FRANCISCO








Causa arrepios a visão de um quadro estarrecedor: bandos de mergulhões e quem-quens catando moluscos no meio do rio com a água mal cobrindo seus pequenos pés. Já não bastavam as imensas coroas e bancos salientes de areia entupindo os canais do rio para tanto nos assustar e criar uma perspectiva tenebrosa quanto ao destino do nosso consagrado rio. Agora, bandos de aves passeiam em suas águas sem molhar as penas. Essa visão nunca, jamais ter diante dos meus olhos acostumados ao namoro diário com o meu rio.
Ano a ano a situação do meu rio fica mais crítica e as perspectivas são as piores, afastando-se a esperança de um reversão a curto prazo se os cerrados ainda continuam sendo devastados, e há a ameaça de se liberar mais e mais desmatamento – do cerrado e da mata seca. Ganha-se por um lado, mas perde-se muito do outro. Na elaboração de leis modificativas de situações já estabelecidas numa região seria aconselhável consultas locais, ouvir as pessoas, trocar de idéias e vivenciar os problemas vividos pelos homens da terra – o que sabe as veredas e as nascentes que vão alimentar o grande rio. No caso das questões hídricas tudo é muito mais sério. Vê-se, de um lado, a situação dos produtores, a necessidade de ampliar as áreas de desmatamento para plantio de lavouras e pastos. No papel é fácil. A realidade é outra. No cerrado são-franciscano, por exemplo, o que se vê é outra situação. Não tem lavoura, nem pastos. Vai restando o deserto quando se tira a cobertura vegetal para alimentar as bocas de fornos das usinas. Ganhou-se um bom dinheiro por uns tempos. E depois? O que sobrou recompensa? Se alguém tem alguma ilusão a respeito, deveria visitar as áreas – imensas áreas devastadas – no distrito de Santa Izabel de Minas. Dezenas de veredas morrendo, muitas totalmente extintas. Vá percorrer o Vieira e o Acari e depois dê uma chegada no areal em que vai se transformando o Rio Pardo. Ali está o retrato de uma situação – a devastação do cerrado.
O Rio São Francisco é o retrato mais próximo e visível da situação. Longe daqui técnicos do governo ainda imaginam coisas espetaculares – transposição e hidrovia. No caso da primeira a cada dia vai ficando mais complicado, pois a água está diminuindo, diminuindo. No caso do segundo é possível uma transposição - de hidrovia para rodovia. É só esperar.
Vou lembrar aqui o final de uma crônica que faz parte do meu livro (neste Blog) “Do Cerrado às Barrancas do Rio São Francisco, com o título o rio São Francisco seca:
“Muito mais triste e pior será, se nada for feito para salvar o cerrado e sua gente. É factível de se imaginar, melancolicamente, se isso acontecer – ou deixar de acontecer o socorro – que alguém diante da calha do rio, de um topo qualquer, possa dizer com saudade a um jovem: - meu filho, este imenso trilho de areia que suas vistas hoje contemplam, outrora foi um majestoso rio, o mais importante do Brasil, o então falado rio da unidade nacional.”


Registro fotográfico da situação do Rio São Francisco no mês de julho de 2010, quando da reportagem feita pela Inter-TV.

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sábado, 29 de maio de 2010

PARA FICAR NA HISTÓRIA

Dois dias de intensa atividade cultural para ficar na história de São Francisco, proporcionaram a Associação Cultural de Difusão Voz do Morro e a Cultuarte com o Encontro de Ternos de Folia e Fórum Intermunicipal de Cultura Tradicional. As instalações do Centro Cultural Católico, a Praça Centenário, União Operária e ruas da cidade ganharam colorido e movimentação com o ir e vir de dezenas de foliões, com toalhas brancas no pescoço, levando seus instrumentos. Espaços ocupados por jovens em diversas oficinas – teatro, percussão, entre outras.
Meio à azáfama cultural e inebriante entusiasmo, ilustres visitantes que tomaram parte do evento como palestrantes ou assistentes. Destaco com satisfação a presença do folclorista e escritor Domingos Diniz, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, e Affonso M. Furtado Silva, conselheiro do Consenso Estadual de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Federação Fluminense de Terno de Folias. Diniz, enfocou, em sua palestra, aspectos interessantes da cultura popular e apresentou aos são-franciscanos o belíssimo livro que escreveu, com Ivan Passos Bandeira da Mota e Mariângela Diniz – “Rio São Francisco: Vapores & Vapozeiros”. Afonso homenageou o folião guia mais antigo, entre os presentes – Tino – com a comenda Estrela Guia ( que vem da Catedral da Colônia, Alemanha), e faixa de folião, conferida pela Federação. Lembro que anos atrás esta homenagem foi prestada ao inesquecível folião Adão Barbeiro.
De beleza pura, com toda a expressão de singularidade da terra, foram as apresentações de diversos ternos de folias, em duas noites. Algumas com as tradicionais saudações dos reis à lapinha; outras com santo de devoção e teve até saudação especial à Nossa Senhora do Parto. Depois de cada saudação, o lundu ou chula e quatro. E teve a apresentação de grupos de jovens e mulheres, com a catira e dança de rua e grupos das oficinas promovidas no evento: percussão e teatro.
Para encenar as apresentações, muito especial, um mimo para os são-franciscanos e visitantes, uma verdadeira obra de arte e de alegria. Em um caso a mágica performance de Ana Patrícia, uma explosão de sons na viola de doce suavidade na voz, uma belíssima combinação. Por fim um passeio com o Tambolelê que, hoje, é uma expressão internacional – foi um presente especial para São Francisco assistir o show do grupo que há pouco se exibia no outro lado do mundo.
Dias maravilhosos que nos proporcionaram Tone Raposo e Ronaldo, tanto fazendo pela cultura são-franciscana e região.
Abaixo um pequeno painel de fotos do evento.
























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